Vamos construir...uma luneta?

Pedro Carreira Martins

 


Em 1 hora com custo quase zero uma luneta de viagem à prova de esposas pouco dadas à astronomia


Penso que a todos acontece, num fim de semana prolongado ou mini-férias a local desconhecido, não levarmos o nosso material e disso nos arrependermos quando verificamos que teria valido a pena.

A ver por mim, as mais vulgares razões para isto são:

•Terei lá algumas condições?
• O carro já vai cheio, vou agora c/ mais tralha que, provavelmente, só servirá para andar c/ ela às costas;
• Eu vou é para descansar
•A minha mulher matava-me se eu levasse esta tralha toda.

Mas, normalmente, não nos esquecemos nem temos problemas em levar o nosso saco com o nosso equipamento fotográfico -o que agrada a toda a gente.

Quase todos teremos uma "reflex de 35mm" , 2 ou 3 objectivas e, até, é hoje normal ter na máquina um zoom 35-75 ou mais amplo e mais uma 85/250 ou coisa parecida

Ora bem, do que desta vez venho falar é da maneira simples, barata, cómoda e "sem riscos" como resolvi o problema. (Não significa isto que outras vezes não leve o meu equipamento mais leve).

Ao meu saco de material fotográfico acrescentei um pequeno (quando fechado) tripé, leve mas estável com rótula de total mobilidade, 2 oculares e 2 acessórios simples de construir e de que falarei mais à frente. Desse saco já fazia parte um zoom 100-300 e um duplicador de focal.

Assim, se o céu merece e o sítio é propício, além das fotos de família de que todos gostam e da paisagem também posso fazer observações.

Então...mas onde está o telescópio?...no saco

Como o meu zoom não tem rosca para tripé, com um pedaço de tubo de pvc onde o zoom entra justo e que forrei interiormente com autocolante (imitação veludo) com um parafuso na vertical que faz o ajuste final e uma rosca aberta no próprio tubo, este á enroscado no parafuso da rótula do tripé de forma estável. O tal zoom com 100-300 de focal e f/d 5,6 fica (usando o duplicador) cerca de f/d 11 (200-600) .

A óptica é boa para fotografia. Só faltava fazer dele uma luneta.

Então, com uma tampa posterior de plástico bastante forte (que, obviamente, tem a baioneta do corpo da máquina e que se aplica solidamente na baioneta da objectiva) e com um tubo solidamente fixado num buraco aberto nesta tampa e um pequeno parafuso lateral ficou feito um porta oculares e... a minha luneta de viagem que, ainda por cima é pequenina, leve, de focal variável e que tem integrado o seu próprio buscador, bastando para isso "buscar" com uma ocular mais longa e/ou na focal mais curta e depois é só "esticar" a focal e/ou trocar a ocular por uma mais curta.

Pese embora o facto de uma objectiva, feita para fotografia dentro de parâmetros normais embora elevados, não ser feita para ver o céu (o que se altera para os felizes possuidores das objectivas das grandes marcas com excelentes ópticas, inclusive de fluorite) e a aberração cromática poder ser importante, parece que vale a pena pelas características práticas de que se reveste e chega para "ver muita coisa" garanto-vos eu por experiência própria.

E...já agora por que não uma montagem equatorial para ela com as mesmas características práticas?

Se sobre a rótula do tripé, na rosca para a máquina, fixarmos, em vez da objectiva feita luneta uma 2ª. Rótula ou melhor, uma cabeça panorâmica para cinema (de amador e leve, claro) e inclinarmos a 1ª cabeça, a que está no tripé, com um ângulo aproximado à latitude e apontarmos o parafuso para a polar de modo a que a plataforma da rótula (a 1ª) fique tão aproximadamente quanto possível paralela ao arco descrito pelo equador celeste, então o movimento horizontal da 2ª rótula ou cabeça panorâmica, onde fixamos a luneta, deixa de ser horizontal e passa a seguir os objectos que estamos a observar e teremos luneta sobre montagem equatorial e... boas observações.


Referindo-me desde já a estes acessórios, devo fazer notar que, quanto ao tubo suporte, este só é necessário se a objectiva não possuir rosca para tripé no seu corpo (o que acontece em alguns modelos) o que é óbvio. Mas, a ter de ser feito, deve ser forrado com autocolante imitação veludo e neste não devem ser feitos buracos nem para a rosca para adaptar ao tripé nem no do parafuso de ajuste que segura com firmeza a objectiva. No meu caso ainda fui mais longe, meti entre o PVC e o veludo, a tapar os tais buracos, uns quadrados de plástico recortados daquelas tiras que vêm a envolver os colarinhos das camisas. Tudo isto para proteger a objectiva, claro está. Os buracos com rosca no PVC, fazem-se facilmente com uma verruma primeiro e depois com um parafuso igual, bem quente.


A outra foto mostra o "instrumento" montado, com duplicador e o porta oculares, só faltando esta para as nossas observações. Como se pode ver, está sobre um tripé leve e portátil mas robusto que tem montadas, primeiro uma rótula fotográfica de 3 movimentos que, como disse no artigo, fica com a plataforma inclinada a cerca de 39 graus ficando o parafuso onde enroscaria a máquina, virado para a POLAR, paralelo ao eixo terrestre portanto. Neste parafuso podem ver aplicada uma chamada cabeça panorâmica de cinema. Assim o funcionamento desta 2ª serve-se do parafuso da 1ª. como eixo de AR, ficando o seu movimento normal manobrado pela pega, para a declinação. Nada mais simples, leve, prático e barato, para quem já tenha este material. (É óbvio que não se trata de aconselhar ninguém a adquirir uma teleobjectiva só para fazer dela uma luneta). E... boas observações.