La Palma 2003

 

A primeira noite

Nada pode descrever o sentimento de antecipação de passar uma noite com os nossos telescópios num dos melhores locais de observação astronómica do nosso Planeta na companhia de outros tantos gigantescos primos.
Apesar das condições atmosféricas não terem sido as ideiais, havendo algum vento e turbulência, acho que sinceramente nem um ciclone nos arrancaria de lá.

A escuridão e transparência do Céu eram excepcionais não só no topo do Roque de Los Muchachos, como em praticamente toda a ilha de La Palma. Isto tudo em parte graças a um céu protegido por Lei que obriga a que os candeeiros de iluminação pública sejam direccionados para o chão e na utilização de lâmpadas de sódio da alta pressão.

Iluminação pública

O resultado final é um céu escuro por toda a ilha, inclusivé até bem perto de povoações, que parecem pintalgadas de pequenos pontos de luz amarela, que de facto evitam as enormes abóbodas de luz que lamentávelmente são tão vulgares no "mundo civilizado" e que nos negam a todos nós o direito de disfrutar o resto do Universo.

Na foto acima é possível reparar na localização da lâmpada bem no interior do candeeiro. Não é realmente necessária grande tecnologia para evitar a poluição luminosa, apenas um pouco de bom senso.

Foi vulgar pararmos os carros no meio de nada e apreciar a quase instantânea visão da Via Láctea em todas as suas ramificações, assim como muitos dos objectos que normalmente não são visiveís à vista desarmada exceptuando em locais realmente escuros e transparentes - tudo isto sem prévia adaptação da visão nocturna! Parecia o paraíso dos astrónomos.

Na realidade só olhar para aquela imensa abóboda celeste com a vista desarmada já era suficientemente espectacular, sendo possível observar sem qualquer instrumento objectos como a M33 em Triângulo, os enxames de cocheiro M36, M37, M38 e numerosos messiers em Escudo, Sagitário e Escorpião. Ninguém ficaria indiferente a semelhante espectáculo, astrónomos ou não-astrónomos.

Também digno de nota foi poder apreciar constelações do Sul que em Portugal continental não se conseguem observar bem ou na sua totalidade, visto que a localização geográfica de La Palma ter menos cerca de 10° de latitude (27°).

Entre outras, era possível observar as constelações do Gru (que parece uma girafa a correr), a Microscópio (nome algo adequado), a Fénix (parcialmente), o segmento mais baixo da Eridanus e a Fornax (ainda bem baixa), e as de Columba, Cão Maior e Pupis em todo o seu fulgor, assim como o Sagitário e Escorpião bem altas no horizonte.

Os binóculos pareciam ter ganho uma outra dimensão, aumentando exponencialmente de abertura fazendo com que a grande galáxia de Andrómeda, M31, se espalhasse por mais de 3 graus, tendo as suas satélites M32 e M110 como que a flutuar. Também a maior e mais próxima nebulosa planetária Hélix (ou Helical) aqui 10 graus mais alta, se apresentava simplesmente grandiosa e verdadeiramente impressionante, espalhando-se por uma área quatro vezes maior que a sua congénere em Seta, M27.

Era um prazer indescritível passear os binóculos pela a área de Escorpião e Sagitário com as suas nebulosas, enxames abertos e globulares, seguindo por aí acima os braços da nossa Galáxia por Escudo e a Àguia até Cisne onde também se adivinhava "North America", iniciando-se então a descida por Cefeu (com a sua gigante vermelha Mu), Cassiopeia onde se pode observar inúmeros enxames, Perseu do famoso Duplo e finalmente Cocheiro que alberga 3 exemplares distintos de enxames abertos.
Enfim, a Galáxia em todo o seu esplendor, parecendo um verdadeiro parque de diversões para quem gosta de observar o céu como um todo, rodeado por uma Natureza quase intocada. Só por este espectáculo valeu a pena.

Os "Aficionados"
Da esquerda para a direita
Alberto, Zé, Anselmo, Rui, Alfonso, Pedro, Luís e Hugo

Chegamos ao ORM ao fim da tarde, depois de uma bem sinuosa estrada com 12 km em que se subiu cerca de 1400m - da primeira vez gastamos 45 minutos. Durante este troço (que repetimos por diversas vezes) era possível apreciar as àrvores (pinheiros essencialmente) que gradualmente iam ficando mais esparsos até desaparecerem completamente depois dos 2000 metros de altitude dando lugar a uma forte vegetação rasteira.

O ar já se notava um bocado mais rarefeito e seco, assim como a temperatura que desceu bastante, mas sem contudo causar algum impacto notável para o organismo.

Estacionamos os carros num dos três heliportos do Observatório e depois de tirarmos umas fotos para a posteridade, descarregamos a preciosa carga da carrinha (onde nem cabia nem mais uma ocular), sendo todos os telescópios montados sem excepção, preparados para nos dar alegrias.

A carrinha

A carrinha foi descarregada pela primeira vez já lá em cima, e para alívio de todos, todo o equipamento chegou sem qualquer problema, isto depois de ter viajado mais de 1500 km por terra e barco.

A quantidade de telescópios e acessórios poder-se-ia considerar impressionante assim como o seu valor, quer material como afectivo. Tenho as minhas dúvidas que muitos se quer ponderariam a empreender tal façanha com o seu equipamento. Mas os instrumentos são para se utilizar e felizmente o seu transporte correu tudo como previsto, tanto na ida como na vinda.

Esta foi a carrinha onde se transportou praticamente todo o equipamento:
Obsession 18",Obsession 15" com GOTO, Merak 12", Takahashi Melow 10", Skywatcher 8", refractor TMB 4", Swaroski 80mm, Takahashi FC60, Losmandy G11 com Gemini, Vixen New Atlux , 2 tripés de madeira Baader e Berlebach, alguns quilos de oculares, roupa, computadores, livros, diversas baterias de 12v, mesa, bancos.

Takito desafia GranTeCan

Apesar do Sol já estar muito baixo, não resisti dar a primeira luz ao Takito a 2300 metros de altitude - a observar o Sol claro :)), tendo também o Rui montado o refractor TMB de 4" com filtro h-alpha.
Não me recorod de alguma vez ter observado o Sol com condições de tanta estabilidade, que era simplesmente espantosa, mesmo tendo em conta a já baixa altitude do Sol. Ver aqui fotos do Sol.

Antes de montarmos os telescópios fomos fazer a nossa primeira visita ao Swedish Solar Telescope (SST), onde se registou este pôr do Sol nas nuvens na foto abaixo.

A grande altitude e amplo horizonte torna cenas como o fim do dia verdadeiros espectáculos da Natureza.
Aqui o Sol ainda não estava propriamente a pôr-se, mas sim a desaparecer na camada de nuvens mais baixa. Notar o perfeito recorte do disco solar. Momentos a que ninguém pode ficar indiferente.

O Crepúsculo

Apesar das noites e dias passados no Observatório (ORM) não possam ser consideradas como boas tendo em consideração o local, sentindo-se algum vento que além de causar alguma turbulência, tornava a operação dos grandes Obsessions e Merak algo complicada, pois a sua área pode-se considerar uma autêntica vela.
A humidade relativa era bem mais baixa do que estamos habituados por cá, mas contudo, não impediu que as condições fossem semelhantes às encontradas nos melhores céus alentejanos, mas obviamente melhores no que diz respeito à transparência devido à grande altitute. Não tivemos realmente muita sorte.

Depois de montados os telescópios, fomos apaziguar os estômagos com o tradicional piquenique crepuscular que é sempre um momento de alegre tertúlia e convívio bem à Portuguesa, após a que se seguiu uma excitante caça a todos os objectos.

O rol de objectos observados foi extenso e variado, assim como a raridade de alguns deles.

Dos que mais marcaram nesta primeira noite podem-se encontrar a observação visual directa de todo o Quintento de Stephen em Pégaso nos 18" e 15" e as estrela(s) centrais da M57, que até o Takahashi Mewlon de 25cm teve o displante de mostrar para alegria do seu dono, Alfonso. Com céus desta categoria, para além de tentar a observação de objectos tradicionalmente difícies, é sempre obrigatória a visita a muitos dos objectos favoritos, pois muitos deles ganham outra vida, sendo possível ver mais ou diferentes detalhes de outras observações.
Cada um passou a sessão com bem apeteceu e gosta, por exemplo, o Pedro andou toda a noite a saltitar de objecto em objecto com o seu skywatcher de 20cm montado numa G11 a fazer imagem com uma webcam modificada, acabando a noite com a cabeça do cavalo em Orion que nessa noite nos escapou visualmente.

Mais particularmente, fiz uma pequena ronda com o Tak de 60mm a 20x e 56x guiado pelo meu inseparável Karkoschka(anotado), revisitando bastantes objectos à medida que o Céu ia rodando, salientado contudo uma fabulosa vista da Helix, North America e ambas as Veils todas com o filtro UHC.

A festa

Na foto acima é possível constatar a intensa actividade entre os telescópios, tendo como pano de fundo o GTC e o Galileo. Ainda deu para experimentar um binoviewer Denkmeier com duas panoptics de 24mm e duas naglers zoom - o arranjo de sonho com imagens verdadeiramente envolventes.

Durante toda a noite foram aparecendo junto a nós astrónomos e pessoal técnico do Observatório para conversar e dar umas espreitadelas através dos telescópios, coisa que curiosamente é algo rara por aqueles lados.

Para o fim da noite o vento começou a soprar mais forte obrigando a um encerrar prematuro da sessão, voltando novamente a ter que arrumar quase tudo na carrinha, tendo ficado esta nas instalações do Observatório que nos foram gentilmente cedidas. Fomos embora cansados mas felizes.