Eclipse Anular - 3 Outubro 2005

Valverde, distrito de Bragança - Portugal

7:38 e 10:19 (UT)

O dia nasceu perfeito com o céu completamente limpo, pouco ou nenhum vento e com uma temperatura razoavelmente amena. O local escolhido foi um planalto situado perto de Valverde a alguns quilómetros abaixo da cidade de Bragança, situando-se praticamente sobre a linha da perfeita centralidade.

Alguns do grupo chegaram ao local ainda de noite para ter oportunidade de alinhar as montagens com a polar, chegando outros mais tarde, mas ficando todos prontos e na expectativa bem antes do seu início.

O início do eclipse foi uma surpresa, sendo esta uma característica dos primeiros contactos. De repente o Sol apresentou uma pequena dentada que ia aumentando a olhos vistos - o espectáculo tinha começado.

Após a excitação inicial, foram momentos de expectativa preenchidos essencialmente com a observação do limbo lunar por infelizmente, o Sol não apresentar manchas solares, contudo, apesar de alguma turbulência, foi possível ver a silhueta de crateras e mares, nomeadamente o Mare Orientale cuja depressão e pico central por vezes se salientava devido à Lua se encontrar numa libração favorável, ficando assim entretido até à chegada do próximo momento alto, o segundo contacto.

Com telescópios h-alpha como o da Coronado PST, este momento é talvez mais dramático por ser possível observar as proeminências solares a nascer no limbo lunar, como se surgissem do nada, até que finalmente o círculo fechar.
Até este momento foi notório o decréscimo de temperatura e o amortecimento da luz ambiente, cuja a melhor analogia que consigo fazer é a de como tivesse a usar óculos de Sol levemente escurecidos.

Apesar da Lua ocultar pouco mais de 90% da superfície solar, a intensidade do Sol continuava a ser extremamente forte, sendo apenas possível observar directamente sem filtro por uma fracção de segundo para se notar que realmente o Sol se encontrava ocultado.
Logo de seguida aconteceu a quebra do anel com o terceiro contacto, que à semelhança do segundo, ficando as proeminências solares novamente como que suspensas a surgirem do nada, embora, estas neste limbo fossem menos proeminentes.
O tempo decorrido entre os dois contactos foram cerca de 4 minutos de intensa excitação e deslumbramento, incluido a extraordinária visão de um perfeitamente delineado anel de fogo. Fiquei praticamente com olho colado no PST, alternando com a obtenção de algumas fotos.
Após a quebra do anel, a normalidade foi sido reposta lentamente até ao quarto e último contacto (ou antes "descontacto"), que mais uma vez em h-alpha, foi possível observar as proeminências a reaparecer. Na meia hora seguinte levantou-se o vento devido à repentina diferença de temperatura.

No final ficou a agradável satisfação de ter presenciado um momento único, tendo tudo corrido da melhor maneira possível e também na melhor das companhias.

São raros os eclipses cujo o caminho central tenha passado ou passará em território continental português. O último eclipse foi simultaneamente total e anular (híbrido), cujo o caminho passou entre o Porto e Aveiro em 17 de Abril de1912 mas com apenas 1 a 2 segundos de duração na fase da totalidade.
Por curiosidade a última vez que Portugal continental teve a visita de um eclipse total anular foi a 1 de Abril de 1764 mas o próximo será em 26 de Janeiro de 2028, passando no entanto a faixa central ao largo de Faro.
O próximo eclipse total será em 12 de Agosto 2026, apesar da faixa de ocultação entrar apenas 4 kms numa pontinha de Portugal a norte de Bragança. Por ser tão raro tendo sido este talvez o evento astronómico mais aguardado do ano.

Embora tenha dado primazia visual ao evento, ficam as imagens e animações que tive oportunidade de registar para mais tarde relembrar, partilhando por este meio com todos os que se fascinam com estes momentos de rara beleza.

Eclipse Anular

Eclipse Anular
versões 1024, 1280 e 1400

Eclipse 08:38 - 10:19 TUC
Eclipse 08:38 - 10:19 TUC
Animação com intervalos ~10 minutos

 

Eclipse no seu máximo ás 9:54 TUC

 

Mare Orientale ?

Mare Orientale ?

 

Proeminências solares imediatamente antes de contacto II ( 8:52 TUC)

Proeminências solares imediatamente antes de contacto II ( 8:52 TUC)

 

Proeminências solares imediatamente após o contacto III ( 8:57 TUC)

Proeminências solares imediatamente após o contacto III ( 8:57 TUC)

 

Proeminências solares ( 9:34 TUC)

Proeminências solares ( 9:34 TUC)

 


Vistas do local e equipamento
Vistas do local e equipamento

Circunstâncias locais - Valverde, Bragança, Portugal *

Posição Duração Máximo de Eclipse
Latitude Longitude   UT g
+41 42 +6 47 4' 5.7" 8 54 53.4 0.974

1ºContacto 2ºContacto 3ºContacto 4ºContacto
7 38 52.6 8 52 30.6 8 56 32.7 10 18 2.7

* fonte : Institut de Mécanique Céleste et de Calcul d'Éphémérides Observatoire de Paris - Bureau Des Longitudes

Equipamento utilizado :

Nota importante:

Em todas as imagens e observações foram utilizados com filtros solares apropriados para a observação visual do Sol através de um telescópio. Estes filtros apenas permitem passar 0.00001% da intensidade da luz, também bloqueando completamente as radiações nocivas, tais como os UV.

Algumas ligações relacionadas

Luís Carreira, Outubro de 2005