Eclipse Solar Total - 29 Março 2006

Akkise, distrito de Ahirli, Konya - Turquia Central
9:40:23 e 12:14:56 (UT)

Local de observação ( requere Google Earth)

Akkise foi o local escolhido pelo Grupo Atalaia para observar um dos mais raros e impressionantes espectáculos da Natureza. O local encontrava-se exactamente em cima da linha de totalidade numa encosta plantada com pedras um pouco acima desta povoação que se situava a cerca de 1350 metros de altitude, proporcionando um palco com um horizonte de vários quilómetros de profundidade delimitada pelos os Montes Taurus , com o lago Sugla a adicionar mais um motivo interessante.

Após um breve reconhecimento do local, seguiu-se a montagem dos diversos equipamentos: máquinas fotográficas, câmaras de video, telescópios de luz branca, h-alpha e binóculos. Por fim, a hora e meia antes de se iniciar o eclipse estava tudo preparado. Iniciou-se então a espera, até que finalmente a Lua deu a primeira dentada no Sol.

08:02:34

08:02:34

O eclipse tinha começado. Alguns de nós foram anotando as mudanças que se sentiam no ambiente, como a temperatura, vento e sons dos animais, outros fazendo exposições fotográficas, tendo todos seguido o avanço da Lua em frente do Sol com o seu instrumento de escolha: telescópios, binóculos ou simples óculos filtrados.

Desde o início do eclipse que se foi notando uma baixa gradual da temperatura, e a partir de um certo momento obrigou a todos a agasalharem-se melhor. Mas a 2/3 de ocultação é que se começou a sentir a luz ambiente a tornar-se cada vez mais mortiça, mas em nada semelhante à perda luz sentida por uma nuvem ou de um pôr do Sol.

Existe sempre alguma ansiedade na escolha do local causada pela a dúvida de alguma nuvem possa encobrir o Sol durante a totalidade. A nós também calhou o nosso momento de "suspense" quando uma das nuvens que se formavam nos Montes Taurus se aproximou perigosamente do Sol 15 minutos antes da totalidade, mas felizmente acabou por passar bem distante. A 10 minutos da totalidade já estava garantido que nenhuma nuvem iria estragar o espectáculo, tendo certamente todos ficado mais aliviados.
Entretanto, já se tinham juntado a nós habitantes, alunos e professores da escola de Akkise e ainda um grupo de húngaros, aos quais íamos mostrando o crescente solar e fazendo brincadeiras com as sombras.

Faltavam então os derradeiros minutos para aquilo que era para mim então, verdadeiramente desconhecido. Com o horizonte Sudoeste a escurecer cada vez mais, Vénus fazia a sua aparição primeiro nos binóculos e pouco depois apenas com a vista desarmada.

08:22:47

08:22:47

Eis que o primeiro alarme toca - faltavam apenas 45 segundos - olhei para o horizonte Oeste à espera da sombra com a largura de 170 km que iria percorrer a uma velocidade vertiginosa (cerca de 866 metros por segundo) todos aqueles quilómetros desde os picos nevados até a nosso pequeno planalto, tendo olhado uma última vez para o relógio, sendo necessário ligar a luz para poder ler as horas - faltavam 15 segundos...

E fez-se noite.

Um dos momentos mais impressionantes foi a chegada da sombra. Pareceu ser quase instantânea, sensação talvez explicada pelo facto de olhos necessitarem de alguns segundos para se adaptar à repentina quebra de luz ambiente, que se estima ser equivalente a duas vezes a de uma noite de Lua cheia. Foi neste momento que se ouviram exclamações, embora sinceramente, não me recordar praticamente nada do que tenha feito, dito ou ouvido por essa altura. O que se estava a passar a toda a minha volta era tão diferente e belo que julgo por esta altura ter desligado quase todos os sentidos excepto o da visão.

Encontrei-me repentinamente rodeado da mais estranha paisagem que alguma vez tenha visto. Não tirava os olhos daquele Sol negro a irradiar imensas e fantasmagóricas pétalas brancas com uma fina textura capilar - uma visão verdadeiramente hipnotizante. Todo o horizonte apresentava uma alvorada surreal em tons de amarelo e laranja acabando algo repentinamente no azul profundo da restante esfera celeste, sendo este recortado pela silhueta das cadeias de montanhas que nos rodeavam - o estranho não eram as suas cores, mas sim a sua relativa pouca extensão e a presença de uma zona mais escura a nível da linha de horizonte, semelhante à sombra da Terra num horizonte anti-solar, mas muito menos extensa e mais escura. A magnífica coroa solar estendia-se pelo menos entre 1 a 2 diâmetros solares.

Apenas consegui observar os planetas Mercúrio e Vénus, apesar de ter procurado mais alguns corpos celestes que infelizmente algumas nuvens teimavam em esconder. A iluminação pública das localidades em redor, enganadas pelo falso crepúsculo acenderam.

Só o meu alarme a meio da totalidade me despertou da estupefacção para tirar mais uma rápida série de fotografias.

No telescópio e nos bínóculos eram perfeitamente evidentes as protuberâncias solares cor de rosa, assim como a imensa coroa solar que se espalhava até fora dos limites do campo de visão, mas sem dúvida a imagem mais marcante foi a daquele disco negro a irradiar luz - tão de sobrenatural como de inesquecível .

Já a parte final do eclipse observei através do telescópio, vendo o anel de diamante a crescer num ápice até se tornar insuportável de olhar, tendo mesmo que tirar os olhos da ocular in extremis. Terminei tranquilamente a ver o horizonte cada vez mais brilhante e as cores lentamente a retornarem à paisagem.

Depois foi a grande euforia que tomou conta de todos os que ali se encontravam. E não era para menos, tínhamos assistido a algo que ficava para além de tudo o que se podia imaginar. Observar um eclipse solar total é, e será sempre um daqueles momentos inesquecíveis, especialmente se for o nosso primeiro. Não me vou cansar de insistir se houver a remota possibilidade de ficarem debaixo daquela sombra, fazerem a vós mesmos um grande favor, e não perderem este sublime espectáculo por nada deste mundo. É dos pouco eventos que não deixa indiferente ninguém neste planeta.

Abaixo ficam algumas imagens do eclipse. Clicar nas imagens para maior resolução.

eclipse

(clique na imagem - click on the image)

Protuberâncias Solares

Protuberâncias Solares
10:56:58
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Corôa Interior

Corôa Interior
10:59:18
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As"contas" de Baily (Baily's Beads)

As"contas" de Baily (Baily's Beads)
11:00:09
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O fim da totalidade

O fim da totalidade
11:00:34
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Anel de Diamante

Anel de Diamante
11:00:41
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Coroa Solar Exterior
6 fotos empilhadas
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Coroa Solar Exterior e Luz da Terra

Coroa Solar Exterior e Luz da Terra
6 +1 fotos empilhadas
(clique na imagem - click on the image)

Já no rescaldo, pus-me cá a pensar que apenas bastava ter trazido a minha cadeira reclinável e uns binóculos. O período de totalidade é demasiado curto para apreciar visualmente e tirar fotografias convenientemente. Estas apesar de fotografias serem gratificantes posteriormente, são apenas uma pálida descrição do que realmente se sente ao estar na sombra da Lua.

Passados alguns minutos após a totalidade, a nebulosidade começou a aumentar (curiosamente muitas nuvens lenticulares), ficando diversas fotografias da sequência de fases estragadas. Por fim às 12:14 vi a Lua a desaparecer da frente do Sol.

No final fizemos um piquenique, como se pode atestar na fotografia abaixo.

12:20:47

12:20:47

Circunstâncias locais - Akkise, Turquia *

Posição Duração Máximo de Eclipse
Latitude Longitude   UT g
+37 22 -32 09 3 47,4 10 58 38,5 1,025

1ºContacto 2ºContacto 3ºContacto 4ºContacto
9 40 23,8 10 56 44,7 11 0 32,1 12 14 56,3

* fonte : Institut de Mécanique Céleste et de Calcul d'Éphémérides Observatoire de Paris - Bureau Des Longitudes

Istambul

Istambul
2 dois e meio após o eclipse

Estivemos uma semana na Turquia. Nos dias que rodearam o eclipse, percorremos várias regiões deste país que é extremamente rico em locais de interesse histórico, desde as cidades subterrâneas e capelas cristãs com frescos do século XI escavadas na rocha macia dos diversos e gigantescos vulcões em Capadócia, o grande anfiteatro romano de Aspendos e a enorme cidade helénico-romana de Perges na costa mediterrânica. Já na imensa Istambul passando pela monumental catedral bizantina de Hagia Sofia, a Mesquita Azul (na foto acima), a cisterna de água subterrânea de Yerebatan, o sumptuoso palácio Topkapi, um passeio no Bósforo, culminando numa grande jantarada na panorâmica Torre de Gálata.

Clicar na imagem abaixo para ver algumas fotografias da Turquia.

turquia

Equipamento utilizado :

Nota importante:

Em todas as imagens excepto na totalidade foram utilizados com filtros solares apropriados para a observação visual do Sol. Estes filtros apenas permitem passar 0.00001% da intensidade da luz solar, também bloqueando completamente as radiações nocivas, tais como os UV.

Algumas ligações relacionadas

Luís Carreira, Abril de 2006