Outubro 2004

Pátio 177
Eclipse Lunar Total

2004.10.28
Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

A noite até começou bem, com grandes abertas interrompidas por algumas nuvens de passagem apressada. Escusado será dizer que à medida que a hora do eclipse se ia aproximando, as condições meteorológicas iam por seu lado piorando, até que começou mesmo a chover - por vezes torrencialmente. Mas uma condição meterológica instável sempre é melhor do uma má condição meteorológica estável, ,podendo sempre haver alguma esperança.

Sempre de olho no Meteosat, ia fazendo uma pouco fiável previsão das possíveis passagens dos poucos buracos que se iam aproximando da costa litoral por cima do pátio . Felizmente nalgumas acertei e noutras felizmente também errei! Nada fazia prever a aberta de mais de uma hora durante o período da totalidade, não sei se foi apenas local, mas no pouco horizonte disponível no pátio, o céu esteve praticamente limpo.

Felizmente nas poucas abertas que surgiram. foi possível registar moderadamente confortável as imagens abaixo. Até chegar a surpresa da GRANDE aberta.

Visualmente, este eclipse lunar foi o mais escuro que tive ocasião de apreciar, pelo menos de maneira mais informada, tendo um valor na escala de brilho de eclipse de Danjon entre 1 e 2. À vista desarmada era possível observar tonalidades que iam desde o vermelho acastanhado, passando pelo laranja cobre até ao amarelado no limbo oposto.

Não deixou de ser uma sensação estranha ver uma lua cheia rodeada de estrelas. A fotografia no máximo do eclipse contém estrelas de magnitude 10!, o ceú estava tão escuro quanto a poluição luminosa permitia.
O binóculo foi o meu instrumento favorito na observação deste eclipse, pois devido à baixa magnificação, as cores aparentaram ser mais vívidas, para além do grande campo salientar a natural estranheza e raridade das imagens.
Irão acontecer mais eclipses lunares parciais e penumbrais nos próximos dois anos, mas o próximo eclipse total apenas acontecerá em 3 Março de 2007.

Lua em eclipse
Lua em eclipse
resolução - resolution: 2"
instrument(o):Takahashi SKY90 f/9 (800mm)
câmara: Nikon D70
(clique na imagem - click on the image)

 

Lua em eclipse máximo 03:04 UT
Lua em eclipse máximo 03:04 UT
exp: 10s iso 400
resolução - resolution: 2"
instrument(o):Takahashi SKY90 f/9 (800mm)
câmara: Nikon D70
Takahashi P2Z

(clique na imagem - click on the image)

 

Lua em eclipse máximo 03:04 UT
Lua em eclipse máximo 03:04 UT
exp: 10s iso 400
resolução - resolution: 2"
instrument(o):Takahashi SKY90 f/9 (800mm)
câmara: Nikon D70
Takahashi P2Z

 

Lua em grande campo
Lua em grande campo
exp: 8seg. iso 50
câmara: Canon G1 100mm
Takahashi P2Z


Pátio 176
Conjunção Lua Minguante e Marte

2004.10.13
Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Um amanhecer de rara serenidade por estas paragens, que ofereceu a oportunidade de capturar uma conjunção da Lua com apenas 0,9% de iluminação com o planeta Marte, do qual distava cerca de um grau.
A Lua encontrava-se a menos de um dia de ser Nova (faltavam apenas 20 horas e 40 minutos), sendo possível observá-la facilmente com os binóculos desde a altitude aparente de 3 graus (06:10) até a pouco mais de 4 graus 5 minutos após, isto apesar da sempre presente neblina matinal e do Sol que brilhava a apenas 11 graus mais abaixo.
Tentei também observá-la visualmente, mas não me foi possível detectá-la.

A primeira imagem está com as cores "naturais", sendo a segunda equalizada para evidenciar melhor a conjunção com planeta Marte e a luz da Terra reflectida na parte não iluminada da Lua.

Lua a 0,9% e Marte 06:12 UT
Lua a 0,9% e Marte 06:12 UT
exp: 1/15s. iso 200s
resolução - resolution: 4,2"
instrument(o):Takahashi SKY90 f/4 (360mm)
câmara: Nikon D70

(clique na imagem - click on the image)

 

Lua a 0,9% e Marte 06:14 UT
Lua a 0,9% e Marte 06:14 UT
exp: 1/15s. iso 200s (equalizada)
resolução - resolution: 4,2"
instrument(o):Takahashi SKY90 f/4 (360mm)
câmara: Nikon D70


Pátio 175
À volta de Vega

2004.10.09
Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Pequena sessão de testes com a minha velhinha Toucam Pro que recentemente foi modificada para longa exposição. Esta câmara ainda está na "caixa" original e não é de modo algum refrigerada, não se podendo exagerar muito no ganho nem no tempo de exposição. O melhor equilíbrio ficou em 20 segundos com 40% de ganho.

Philips Toucam Pro
Philips Toucam Pro
A Toucam "original" recentemente modificada

A imagem de "dark" de 20 segundos não se pode considerar muito má, tendo em conta que estava a "trabalhar" sem qualquer refrigeração.

"dark"
"dark"
exp: 20seg
câmara: Toucam SC 40% ganho

Vou tentar o modo "RAW" para a próxima, a prever pelo dark abaixo, as estrelas serão muito mais pontuais se a "mistura" da matriz de bayer for feita posteriormente, neste caso a imagem foi obtida utilizando a capacidade CFA do Iris.

"dark"
"dark"
exp: 20seg RAW
câmara: Toucam SC 40% ganho

As imagens abaixo da estrela Vega serviram essencialmente para verificar a sensibilidade da câmara, que ronda as 14 magnitudes estelares em 20 segundos, sob céu de magnitude 4. com o formato não RAW, julgo ser impossível conseguir estrelas de um pixel, e também apresentam os artefactos, tais como "orelhas", cores diferentes para a mesma estrela entre outros, sendo a responsável a matriz de cores do CCD.
As estrelas também têm todas uma forma estranha devido a uma "farpa" que estava na extremidade do adaptador de 1.25" da toucam.

Vega
Vega
exp: 3.3 mi (10x20s)
Resolução: 4,6" mag. visual 4
Telescópio:Takahashi SKY90 f/2.8 (250mm)
câmara: Toucam SC 40% ganho
Takahashi P2Z

 

Vega
Vega
exp: 3.3 minutos (10x20s)
Resolução: 2,3" mag. visual 4
Telescópio:Takahashi SKY90 f/5.6 (500mm)
câmara: Toucam SC 40% ganho
Takahashi P2Z


Pousados I
Uma noite ao luar

2004.10.05
Pousados - Alcanede

Sessão no local onde o Pedro Mota faz uma boa parte das suas imagens, que podem ser vistas por aqui.
Embora não se possa considerar um céu excelente, tendo entre 5-5.5 de magnitude limite zenital, é suficiente para observar e fotografar todo o tipo de objectos com excepção daqueles realmente ténues, ou os que não emitam em h-alpha.
A Lua ainda se encontrava praticamente dois terços iluminada e nasceu pouco depois de 22:30, mas tal facto não impediu que só de lá saissemos perto das 6 da manhã, já com as galinhas bem acordadas (o galo da capoeira devia estar acertado no fuso horário francês).

Estivemos eu, Mário Santiago e o nosso anfitrião Pedro Mota, respectivamente, com um Tak Takahashi Sky90 e Takahashi P2Z , um STF Mirage7 Deluxe numa Orion SkyView , e o TMB 105mm em cima duma Losmandy GM8 Gemini.

Andamos essencialmente entretidos a fazer imagem, embora mais particularmente apenas tenha feito alguns testes com a webcam a cores e com a Nikon D70, e de ter tentado colocar a "Crescente Nebula " no CCD até ao "intervalo" para o petisco das febras e chouriço assado, preparado pelo o Pai do Pedro.

"Sr. Mário" e "Sr. Mota"
"Sr. Mário" e "Sr. Mota"
Uma dupla à volta das estrelas duplas. Um fazia a vez de motor de autofocus e de rodas de filtros e o outro analisador de FWHM em "realtime".
Este duo só ficava contente quando via estrelas de um pixel na imagem.

Mais uma foto solitária da M31, já um pouco influenciada pela a Lua. O contraste melhorou significativamente em relação à foto anterior tirada no Pátio.

M31, M32 e M110
M31, M32 e M110
exp: 1x300s iso 800 (mode3)
resolução - resolution: 4,2"
instrument(o):Takahashi SKY90 f/4 (360mm)
câmara: Nikon D70
Takahashi P2Z

Depois de retornar do petisco, já a Lua estava se encontrava bem alta, o Pedro emprestou-me a sua Atik 2HS e o filtro h-alpha para fazer as imagens abaixo, enquanto ele e o Mário foram capturar estrelas duplas usando diversos "cocktails" de filtros.

O filtro h-alpha corta bastante luz, tanto a de poluição luminosa como a do Luar, mas notou-se a gradual perda de contraste à medida que a Lua ia subindo. Notar que a Lua estava apenas distanciada cerca de 30 graus dos objectos fotografados. Apesar das imagens em h-alpha se medirem "às horas" e não aos minutos, as imagens abaixo ficaram simpáticas. Ambas beneficiariam de céu mais escuro, menos turbulento, e maior tempo de sub-exposição individual.

Barnard 33, NGC 2023 & IC 434
Barnard 33, NGC 2023 & IC 434
Takahashi SKY90 f/4 (360mm) Atik-2HS 4,3" 60%
Takahashi P2Z
exp: 34 minutos (14x60s+10x120s) h-apha

A região da nebulosa de Orion, Messier 42, é simultaneamente extremamente brilhante e extremamente ténue, tornando um dos objectos mais complicados de registar e processar, porque a gama de intensidade tem um intervalo enorme.
O filtro h-alpha evitou a saturação das estrelas, e capturou detalhe mais fino, tendo utilizado no caldeirão de "stacking" exposições com que vão de desde 3 segundos a 2 minutos. É possível discernir 3 estrelas do trapézio (fazendo zoom), apesar da baixa resolução de amostragem da imagem.

M42
M42
Takahashi SKY90 f/4 (360mm) Atik-2HS 4,3" 60%
Takahashi P2Z
exp: ~ 18' (1x120s+10x60s+11*20s+11*10s+12*5s+4x3s) h-apha mag. visual 4 (lua 65%)

O fim da noite foi de descontração visual no planeta Saturno, mas ainda com o Mário a fazer imagens da Lua e também de Saturno. Houve momentos que TMB esteve muito bom. No Takahashi Sky90 foi necessário o ExtenderQ (um extensor 1.6x para os Takas de relação focal curta, tal como o Takahashi Sky90 e o FSQ106) para eliminar o resto da aberração cromática, a 250x a imagem era para mim isenta de qualquer defeito notório, observando-se a divisão de Cassini, detalhe no globo e pelo menos três satélites quando a turbulência permitia, mesmo usando a desaconselhada diagonal prismática que adicionou algum astigmatismo, pó e humidade ao trem óptico.

Regressei então a casa, não deixando de notar (mais uma vez) o autêntico pântano de nevoeiro e nuvens em que se encontrava tudo o que estava a norte da Serra de Aire e Candeeiros. A autoestrada A1 corta esta serra que parece funcionar com um Grande Recife de Coral, deixando todas a nuvens a norte dele - infelizmente para mim...



Pátio 174
Usar círculos graduados

2004.10.01
Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Embora os círculos graduados se tenham tornado meramente decorativos, tendo até desaparecido nas montagens modernas, não deixaram de ser convenientes para apontar um telescópio para um objecto usando as suas coordenadas equatoriais, sendo também úteis para apontar um telescópio em pleno dia para planetas brilhantes ou cometas nos crepúsculos.
Os círculos graduados foram a primeira forma de GOTO - tanto em montagens altazimutais como em montagens equatoriais.

O método que uso está descrito abaixo e aplica-se à montagem Takahashi P2Z , que possui círculos que apesar de pequeno diâmetro, são gravados com precisão, devendo no entanto ser bastante semelhante a sua aplicação em qualquer outra montagem que os possua.

Os círculos graduados da P2Z
Os círculos graduados da Takahashi P2Z 

O círculo de declinação (acima na foto), tem engravado 4 vezes a escala de 0 a 90, com divisões numeradas de 10 em 10 graus e subdivisões de 2 graus. Pode-se considerar que a resolução é baixa, mas se fosse mais sub-dividida seria certamente de difícil leitura em condições de pouca luz. No entanto, permite uma boa taxa de sucesso quando usado com oculares que proporcionem campos reais superiores a 1 grau e meio. Este círculo só precisa de ser ajustado uma vez, e geralmente fica fixo permanentemente com dois ou mais parafusos.

O círculo de ascensão recta tem uma escala de 0 a 24 horas, sendo cada uma das "horas" sub-dividida em traços de 10 minutos, que parece permitir uma melhor precisão, mas devido à natureza desta coordenada (sempre em movimento), não a torna menos sujeita a erro. Este círculo, ao contrário da declinação pode (e deve) ser rodado livremente, possuindo apenas um parafuso para o apertar levemente.

Para se usar os círculos graduados é absolutamente indispensável que a montagem esteja alinhada o melhor possível pelo o pólo celeste, de modo a que as sucessivas apontagens não acumulem demasiado erro. A forma de obter um bom alinhamento varia de montagem para montagem, algumas requerendo que estejam niveladas, ou ainda outros procedimentos.

Usando apenas o círculo de declinação

A maneira mais simples de utilizar os círculos graduados será apenas utilizar o círculo de declinação. A declinação das estrelas e objectos de céu profundo não varia com o tempo (durante um bom punhado de anos diga-se), estando portanto a sua leitura na montagem sempre correcta.

Este é também o primeiro passo do método completo, mas que pode já ajudar bastante a apontar o telescópio.

Devido ao facto da graduação da Takahashi P2Z ser do tipo 0-90-0-90 (existem outras por exemplo 0-360 ou 0-180-0), poderá ser necessário passar primeiro pela a leitura de declinação 0 (equador celeste), e daí fazer subir ou descer o tubo conforme a declinação seja positiva ou negativa, deslocando o tubo até o ponteiro marcar o valor absoluto da declinação do objecto. Se se souber vagamente onde fica o objecto no céu, basta simplesmente apontar o tubo de grosso modo, refinando-se de seguida usando o círculo.

Com a coordenada de declinação já marcada, bastará "varrer" em ascensão recta na região do objecto a observar até à sua detecção.
Este método tem boa eficácia em objectos que se encontram bem dentro dos limites de detecção do instrumento (e do observador), bastando conhecer apenas declinação do objecto e em que área do céu se encontra.

Usando os dois círculos

Este é o método completo que consiste no passo descrito anteriormente, mas ajustando também a montagem no eixo de ascensão recta.

A maneira mais fiável, mas não necessariamente obrigatória, será de primeiro apontar visualmente para uma estrela brilhante na área vizinha do objecto, podendo esta até estar distanciada várias dezenas de graus, DESDE que se encontre no mesmo lado do meridiano, ou por outras palavras, o tubo do telescópio não pode atravessar o meridiano ao deslocar-se da estrela escolhida até ao objecto que se deseja apontar.

Isto explica-se por ao atravessar o meridiano ser necessário adicionar (ou subtrair) 12 horas aos valores que são lidos no círculo de A.R, e 180 graus ao eixo de declinação. No caso da Takahashi P2Z não existiria problema no eixo de declinação, mas no de ascensão recta seria necessário adicionar em +- 12 horas. Estas contas iriam complicar a leitura e futuras marcações sem óbvia vantagem.

Depois de colocarmos a estrela no centro do campo, engrena-se o motor de A.R. e ajusta-se o círculo de A.R para marcar as coordenadas da estrela escolhida. O círculo de declinação não será necessário ajustar, pois deverá estar certo (salvo se ainda não foi devidamente acertado e apertado).

A partir deste momento, bastará rodar a montagem nos dois eixos de modo para as coordenadas do objecto desejado, trancar os eixos, devendo então o alvo estar no centro do campo de vista ou muito lá perto. Deve-se usar uma ocular que tenha um campo superior a um grau e meio para maior facilidade, pois devido à pouca precisão das graduações pode ser difícil de extrapolar valores não inteiros.

O círculo de A.R. roda simultaneamente com a montagem, à razão de 15 graus por hora, ou um grau por cada 4 minutos, portanto antes de se passar para o objecto seguinte, deve-se ajustar novamente o círculo para as coordenada R.A do objecto que se está a observar correntemente, procedendo-se então à rotação dos eixos de modo a marcar as coordenadas do objecto seguinte, fazendo tal como foi descrito no parágrafo anterior.

e funcionam....

Este tipo de círculos não obrigam a quaisquer cálculos, bastando apenas ter as coordenadas de estrelas brilhantes e dos objectos a observar, informação esta disponível em qualquer bom manual de observação, e de preferência na mesma página. Com prática, é impressionante a sua eficácia, mas no início convém ficar preparado para bastantes tentativas falhadas, portanto deve-se praticar com estrelas e objectos brilhantes e conhecidos. Este tipo de apontamento obviamente pode (ou deverá) ser combinado com "star-hoping" ou qualquer outro método que se utilize, sendo uma boa alternativa (barata e autónoma) a sistemas computadorizados tais como GoTos e círculos digitais, para encontrar asteroides, cometas, objectos perto do limite de detecção do instrumento, ou então objectos que são invisíveis com vista desarmada, quer por serem realmente ténues ou por efeito da poluição luminosa, sendo também bastante conveniente para a astrofotografia, especialmente se evitar o tirar da câmara para apontar o telescópio.