Fevereiro 2005
24/02/2005
Local:Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Testes ao luar

A Lua cheia só serve para chatear, pode parecer bonita mas na realidade é uma grande chata que tiraniza impediosamente metade das possíveis noites de observação do resto do Universo. Apesar de (sabe-se lá porquê) alguns caramelos ainda lhe acharem piada, geralmente apenas utilizo estas noites de Lua cheia para afinar e testar equipamento.

O objecto que actualmente tem requerido mais a minha atenção é o pequeno doublet apocromático Sky90 que tem tido uma pequena mas atribulada história. O dito cujo não gosta lá muito de frio, e tem uma maneira particularmente inestética de o mostrar. Com temperaturas ambiente inferior a 5 graus celsius, apresenta(va) aquilo que se chama ópticas deformadas ("pinched").

Visualmente é fácil de observar o problema desfocando uma estrela ligeiramente em qualquer sentido e reparar na forma dos anéis de difracção, que no caso de existir qualquer zingarelho a causar demasiada pressão nos elementos ópticos resulta em anéis não circulares. Se por exemplo existirem 3 pontos de pressão (por exemplo os parafusos de colimação) resulta num hexagono em que os vértice são tão acentuados como a pressão que cada um destes parafusos está (indevidamente) a exercer .Este aumento de pressão é causado pela contracção térmica da célula da objectiva e vai-se tornando cada vez mais acentuado à medida que a temperatura for baixando. Ora acontece que não comprei um telescópio só para Primavera/Verão, embora considere que todos os telescópios de uma maneira maior ou menor são afectados por temperaturas baixas justificando-se algumas vezes a sua performance menos boa com a turbulência ou outra coisa qualquer.

Este problema foi identificado nas primeiras séries deste telescópio, mas pelo que vi pela Net estas primeiras versões fazia hexagonos de deixar Arquimedes orgulhoso. Então o fabricante (depois desenhador da célula provavelmente ter feito hara-kiri por tamanha desonra) adicionou mais 3 pares de parafusos para resolver o problema (a meu ver não totalmente) que foram criteriosamente selados com cola plástica para tipos como eu não lá mexerem.

Ora bem, depois de ter aliviado os três principais parafusos de colimação para os excluir de qualquer influência, só restaram os misteriosos três pares de parafusos que embora ignore a razão da sua dualidade, tratei (depois de falar com o representante europeu) de os aliviar a todos ligeiramente havendo um deles que fez um ruído que suspeito ter sido de alívio. De seguida fui até ao pátio onde estavam a vigorar uns revigorantes 5 graus celsius, colimei-o (já estou a ficar demasiado "expert" nisso), e reparei que embora ainda não absolutamente ausente, talvez devido à turbulência, os anéis de difracção apresentavam uma forma bem mais circular até pelo menos 2 graus celsius de temperatura ambiente.

Mas precisava da frontalidade de um CCD para confirmar que realmente estava melhor e então usei a Atik para apontar para uma estrela brilhante que estivesse a jeito (Procyon) verificando que aquele horroroso "spike" de difracção que estava presente em praticamente todas as imagens feitas até ao momento com o Sky90 deixou aparentemente de existir (espero eu...).

A título de curiosidade imagem de Procyon foi captada com alguma nebulosidade que causou um fenómeno semelhante aos dos halos lunares ou solares, que são resultado da difracção das gotículas de água. Segundo o livro Óptica 2ª ed. de Eugene Hecht da Calouste Gulbenkian (um grande calhamaço), estas gotículas formam aquilo que se chama uma distribuição bidimensional (rede) de aberturas circulares (neste caso as gotas), fazendo esta rede uma interferência que resulta no curioso padrão de difracção observado na imagem de Procyon. O livro explica que o mesmo efeito se pode simular se olhar para uma luz pontual através de um pano dobrado, embora ache dificil arranjar um luz pontual suficientemente forte que atravesse um pano.

Procyon
Takahashi SKY90 f/5.6 (500mm)+ATIK-1HS 2.3" res 60%
Takahashi P2Z
exp: 1.7' (20x5")

Mais feliz, aproveitei para observar Saturno e Lua e algumas duplas que apesar da turbulência e alguma nebulosidade deram vistas impecáveis.

De seguida foi experimentar um novo adaptador que permite para atarrachar câmaras Atik ou qualquer outra que tenha rosca interior T a objectivas fotográficas, servindo ainda de suporte para colocar às cavalitas de um telescópio que tenha um parafuso de medida fotográfica (3/8"). Este adaptador é feito inteiramente de plástico (do rijo), tendo apenas de metal o contacto de encaixe com a objectiva e a rosca de tripé fotográfico.

50mm+ Atik às cavalitas da "flor de estufa"

Abaixo está a mais pequena Lua cheia do mundo na linha h-alpha <g>. Reparar na imensa área de céu registado - mais de 5 graus na diagonal com apenas um chip de alguns milimetros de diagonal. O filtro h-alpha foi só mesmo para experimentar a colocação do filtro dentro do adaptador, que diga-se de passagem, é um procedimento um bocado mal jeitoso para quem não tenha dedos pequenos. Pior ainda é para tirá-lo. Pena que não tenha foco com a gaveta de filtros da Astronomik, seria bastante mais conveniente.

Esta imagem da Lua dá para fazer uma experiência interessante.
Se se esticar o braço e afastar-mo-nos do monitor o suficiente de modo a ocultar totalmente o disco da Lua com a ponta do dedo indicador - o tamanho da Lua no ecrã é semelhante ao tamanho aparente que realmente vemos no céu - e dessa distância dá para verificar afinal que a Lua é na realidade bem pequenina não é ? (o Sol também tem praticamente este tamanho). Realmente para tapar a Lua ou Sol basta apenas esticar o indicador, truque útil que permite por exemplo observar o grau de nebulosidade fina (ex:neblinas altas).

Lua
Nikkor 50mm f/1.8 (f/2.8)+ATIK-1HS 22.3" res 0%
Takahashi P2Z
exp: (3xf) h-alpha

A única lente decente que possuo é a nikkor 50mm f/1.8 que fechada a f/2.8, me pareceu dar imagens sem vignetagem, embora também me pareça que o CCD da Atik não esteja lá muito ortogonal, fazendo com que as estrelas do do terço esquerdo estejam desfocadas. De notar que com objectivas fotográficas (fixas) ao contrário dos telescópios a abertura varia com o f/. Neste caso é equivalente a fotografar com a resolução de um telescópio com apenas 19mm de abertura (=50/2.8).

Saturno
Nikkor 50mm f/1.8 (f/2.8)+ATIK-1HS 22.3" res 0%
Takahashi P2Z
exp: 8' (4x30+6*60) h-alpha

Um outro problema que andava a infligir as imagens tratava-se de uma marcada matriz nas imagens feitas com a atik, efeito que é bastante notório nas últimas imagens que tenho feito últimamente (ver as galáxias abaixo por exemplo). A matriz parece surgir por diferenças de intensidade nos componentes de cor do pixel (mesmo nas câmaras monocromaticas). A solução passa por aplicar algumas macros e ir experimentando, mas não tendo ainda conseguido eliminar completamente.


19/02/2005
Local: Lisboa e Atalaia (Montijo 38º44N 8º48W)

Sol em h-alpha

Todos os anos acontece no Parque Eduardo VII uma demonstração de de telescópios e filtros solares na linha h-alpha, sendo um boa oportunidade de apreciar o nosso Sol através de instrumentos que são geralmente inacessíveis económicamente.
Estiveram à disposição desde o pequeno e relativamente económico coronado PST, simples e em conjunto com outro filtro (em stack), um pequeno telescópio h-alpha de 50mm ( Solarview ?), um telescópio equipado com um "stack" de filtros coronado 60mm e finalmente outro telescópio equipado com um prisma Herschel que permite observações na luz branca muito nítidas.
O tempo esteve de feição embora o Sol não apresentasse muitas protuberâncias para além de uma gigantesca que atravessava quase metade do globo.

Abaixo está uma das fotos mal amanhadas que tirei julgo que com o filtro de 60mm. É apenas o canal vermelho com os níveis ajustados e um waveletezito.

Sol em h-alpha


Ver fotos da sessão no Atalaia.org.

Despido na Atalaia

Não estava a pensar ir até à Atalaia, nem sequer tinha trazido telescópio , mas acabei por ir e fui-me alapando a quem tinha trazido telescópio. Não posso deixar de registar uma extraordinaria vista de Saturno através de um refractor apo TEC 140mm, em que foi possível além de observar fácilmente o anel C, ver a mínima de Encke com uma abertura tão pequena. A noite não se podia considerar muito boa para observação de céu profundo dado a fase lunar cheia 85%, mas não impediu que tivesse tido alguma afluência.
Outra estreia deste ano foi a primeira vista da GMV em Júpiter, assim como o trânsito do satélite Europa, ambos visíveis com apenas 80mm. Fazia já algum tempo que não observava este planeta com olhos de ver. Foi uma noite bem fria, chegando aos dois graus negativos, e que como não fui convenientemente euiqpado, caiu-me uma orelha e tive de amputar um pé... também esta sessão foi registada no Atalaia.org , onde se pode ver as imagens lá feitas.



12/02/2005
Local:Atalaia (Montijo 38º44N 8º48W)

À caça no meio dos predadores

Já fazia quase um mês que não punha os olhos no céu.

Neste momento estou a testar os limites visuais com o Takahashi Sky90, e alternadamente a fazer alguns registos com a Atik-1hs. Os objectivos pretendidos para esta sessão foram uma selecção de objectos adequados a pequenas aberturas nas constelações do Leões e na Ursa Maior.

A noite não esteve muito famosa com a magnitude zenital à volta de 5, pouca transparência durante toda a sessão embora com alguns períodos em que parecia um bocado melhor, a turbulência em geral foi muito alta mas também esta com alguns (breves) períodos razoaveis. A Lua pôs-se às 22:30.

Depois de muita conversa (estiveram várias dezenas de pessoas no recinto), depois de uma boa olhadela no cometa Maccholz que ainda se apresenta bem brilhante, iniciei a sessão pela grande e brilhante galáxia em espiral barrada NGC 2903, que estando situada perto da boca do Leão a torna fácilmente localizavel. É curioso esta galáxia não ter entrado na lista de Messier, pois é acho-a bastante mais evidente que muitos dos objectos dessa lista.
É notóriamente alongada e deverá ser uma boa candidata para a observação de detalhes usando grandes aberturas. Esses detalhes incluem "hot spots" que são áreas activas de formação de estrelas que podem ser encontrado até perto do núcleo que visualmente se assemelham a nós. Está a apenas 25 milhões de anos luz o que a torna uma das galáxias "próximas". Lá perto está a galáxia anã UGC 5086 de magnitude >15 e apenas 1 minuto de arco de diâmetro.

NGC 2903
Galáxia espiral - Spiral galaxy , mag 9.0, bri 13.6, dim 12.6x6.0'
Leo 09 32 10.2 +21 29 54

Takahashi SKY90 f/4.5 (400mm)+ATIK-1HS 2.9" res 60%
Takahashi P2Z
exp: 39' (52x45") mag 5 neb

De seguida passei pelo trio de galáxias Messier M95, M96 e a eliptica M105 com a companheira NGC 3371 todas elas bastante evidentes e com diferenciação de brilho, dimensão e formato. A pouco mais de 10 graus acima dei um salto à constelação de Leão Menor que de tão pequena tem muito pouco ao alcance de pequenas aberturas, mas ainda tem para oferecer a ténue mas detectável NGC 3344, que com algum esforço se pode descrever por duas ténues estrelas "nebuladas".

Antes de acabar a visita noutro tripleto, passei pela a NGC 3607 que se pode descrever como uma pequena e redonda nebulosidade à volta de uma estrela moderamente brilhante.

De seguida passei ao triple M65, M66 e NGC 3628. Este trio de galáxias espirais espalha-se confortávelmente no grau e meio da nagler 9 a 56x. Apesar da pouca abertura e proporcional falta de detalhes observaveis, considero estes grandes campos sempre satisfatórios pela a sua composição.

Depois de ter completado esta lista fui fazer reconhecimento de terreno na área de Coma e Virgem, passando bem mais de uma hora em identificação e preparação para observar o superpopulado enxame Coma-Virgo que será um dos objectivos das próximas sessões. Mesmo com apenas 90 mm de abertura aquela área pode ser bem confusa.

Por esta altura já Ursa Maior estava a dar o pino, com os seus mais brilhantes objectos bem posicionada para observação.
Comecei pelo o incondicional par de galáxias M81 e M82 que no campo de visão ainda tinham por companhia a NGC 3077, passando de seguida para um outro par M108 e a planetária M97 também ambos bastante evidentes e visíveis no mesmo campo de 1 grau e meio.
Terminei a noite na Messier M109 que tem o dom de por vezes ser irritante de detectar devido à proximidade da gamma da Ursa Maior (Phecda) que debita uns fulgurantes 2.4 de magnitude. Recordo-me da dificuldade que tive encontrá-la na primeira vez que completei a lista de Messier com o dob de 20cm, mas desta vez foi bem mais fácil (melhor contraste ?) - a sua forma alongada e até uma boa parte da sua dimensão foram observadas directamente.

A noite terminou fazendo o registo desta galáxia que é bem bonita e que até está rodeada de alguma companhia, mas infelizmente o nevoeiro obrigou a terminar antes de ter obtido um bom número de sub-exposições (pelo menos o dobro das obtidas). Mas apesar disso ainda é possível observar na imagem os seguintes objectos : UGC 6923 (13.4), UGC 6940 (16.7), UGC 6969 (14.6), PGC 2438633 (16.6), PGC 2436214 (17.65) entre outros.

M109, NGC 3992
Galáxia espiral - Spiral galaxy , mag 9.8, bri 13.5, dim 7.6'x4.6'
UMa, 11:57:35.7 +53 22 28

Takahashi SKY90 f/4.5 (400mm)+ATIK-1HS 2.9" res 60%
Takahashi P2Z
exp: 25' (25x60") mag 5 neb