Outubro 2005

30/10/2005
Local: Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Marte Próximo

Hoje foi o dia em que Marte esteve mais próximo da Terra até 2018. A hora exacta foi 3:24 UT distando 69,416,763 km. A imagem abaixo foi registado menos de 20 horas depois já tendo se afastado para 69,425,326 km. Estava 99,65% iluminado e apresentava um tamanho de 20.16" com um brilho de -2.3 magnitudes.

Também desta vez tentei observar Phobos que distava 16" do limbo marciano pelas 22:05, mas sem sorte. Mesmo com a Toucam não descortinou sinal de nenhum dos satélites. Visualmente era aparente a forma geral das marcas de albedo como na imagem abaixo, mas nada mais. A turbulência esteve bastante alta nas duas horas de aberta . O SQM lia em média 19.0 .

Na imagem mostra no hemisfério Sul a grande faixa escura conhecida por mare Cimmerium e no hemisfério Norte uma zona mais clara na Elysium Mons correspondente a nevoeiro/neblina nesta área. O meridiano central era 206 graus. O Norte está para cima.

Ver o Mars Profiler da S&T

Marte (20051030 2333 UT)
Takahashi SKY90 f/49 (4450mm)+Toucam 0.26"
Takahashi P2Z



23/10/2005
Local: Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Marte e sua prole

Já se torna impossível não reparar naquela brilhante "estrela" laranja que surge a Leste nas horas decentes do serão . Marte faz mais uma aparição infelizmente não com a proximidade de Agosto de 2003 mas desta bem mais altaneiro, sendo a luminária planetária mais em destaque nestas semanas que se aproximam.

A partir desta data o planeta terá um tamanho aparente maior que 20", permitindo observar visualmente um pouco mais que uma pequena bola com algumas marcas de albedo e polo esbranquiçado. Na altura da imagem Marte segundo o Guide8 apresentava um tamanho aparente de 19.98", uma fase de 98.53% e encontrava-se a 70,038,514 km aqui do Pátio. O meridiano central é 312.92 e o Norte é para cima e sentido F-P.
A altura em que estará mais próximo da Terra será em 30 de Outubro às 3:24 UT distando 69,416,763 km. O seguinte momento alto será por ocasião da sua oposição a 8:00 UT de dia 7 de Novembro (70,315,737 km).

Apesar das condições atmosféricas com muita nebulosidade e quando limpo apresentava bastante dispersão atmosférica, houve cerca de uma hora e meia de grandes abertas e alguma calmia que felizmente coincidiu com a passagem do planeta pelo o meridiano local.

Por essas alturas empreendi na caça dos seus minúsculos e elusivos satélites, Phobos e Deimos, apesar de não ter bem a certeza de serem visíveis com apenas 90mm. Usando a magnificação de 270x (nagler zoom a 3mm) passei cerca de uma hora à procura daquilo que provavelmente não passaria de um breve pisco. E julgo ter tido sorte na observação de Phobos que me pareceu piscar cerca de 3, 4 vezes a cerca de um diâmetro marciano.
Apesar de estar a apenas um diâmetro de Marte de distância, é seguramente positiva a sua observação, pois a pouca distância era possível observar sem grande dificuldade a TYC 1232 248 de igual magnitude 11. O Deimos não posso afirmar como observação positiva, este satélite tinha menos uma magnitude de brilho (12) sendo ligeiramente mais complicado de observar devido ao luar e por estar perto dos limites da abertura.
Para melhor visibilidade é geralmente usada uma barra ou quadrado de obstrução aplicado na ocular para cobrir o planeta que já em médias abertura é insuportávelmente brilhante. Felizmente ambos os satélites se encontravam no mesmo lado do planeta, sendo possível por o planeta fora do campo retirando assim grande parte do brilho.

Os pequenos satélites de Marte Phobos e Deimos apenas foram descobertos em 1877 por Asaph Hall usando o refractor de 26" de US Naval Observatory em Washington DC. Na mitologia grega Phobos e Deimos são filhos de Ares (Marte) e Afrodite (Vénus) significando Medo e Pânico respectivamente.

Phobos tem 13.1 x 11.1 x 9.3 km de dimensão e um período orbital de 0.318910 dias (7 horas e 39 minutos) a uma distância média de 2.77 raios de Marte (9377.2 km), completando assim uma rotação em menos que um dia marciano (24 horas e 37minutos), nascendo assim 11 em onze 11 horas, mostrando pelo caminho mais de metade das suas "fases lunares".
Deimos por outro lado apresenta as dimensões de 7.8 x 6.0 x 5.1 km e um período orbital de1.262441 d (30 horas e 18 minutos) a uma distância média de 6.92 raios de Marte ( 23463.2 km)).
Ambos têm um formato bastante irregular e são mais "escuros" que a nossa Lua, muito semelhantes a asteróides e presume-se que tenham sido "capturados".

Marte (20051023 0202 UT)
Takahashi SKY90 f/49 (4450mm)+Toucam 0.26"
Takahashi P2Z

Nesta longitude de Marte é possível observar a Syrtis Major, a grande cratera Hellas, estando a Meridiani Sinus a cruzar o meridiano.
A norte observa-se nuvens, nevoeiros causados pelo derretimento da calote polar e a Sul a pequena calote polar a surgir.

Para determinar as efemérides (em especial as maiores elongações) destes satélites ver a página Ephemeris Generator do JPL - Nasa. No "body" escrever "phobos" e em "Output Quantities and Format" por um visto em "12. Angular separation/visibility".
Abaixo ficam as elongações máximas de ambos satélites. oeste é no lado direito do planeta (em imagem não invertida). o valor dist" é a separação do centro de marte - subtrair 10 para distância do limbo. Em Phobos 10 minutos à volta do valor indicado é quase imperceptível.

Podem ver neste applet em java da Sky and Telescope

Phobos

Tempo UTC Mag Dist " Q
2005-Oct-25 04:21 10,94 27,468 o
2005-Oct-25 19:39 10,94 27,494 o
2005-Oct-25 23:30 10,94 28,031 e
2005-Oct-26 03:18 10,94 27,507 o
2005-Oct-26 22:28 10,94 28,070 e
2005-Oct-27 02:16 10,94 27,537 o
2005-Oct-27 21:25 10,94 28,101 e
2005-Oct-28 01:13 10,94 27,558 o
2005-Oct-28 05:04 10,94 28,109 e
2005-Oct-28 20:22 10,94 28,122 e
2005-Oct-29 00:10 10,94 27,570 o
2005-Oct-29 04:01 10,94 28,128 e
2005-Oct-29 19:19 10,94 28,133 e
2005-Oct-29 23:07 10,94 27,572 o
2005-Oct-30 02:59 10,94 28,137 e
2005-Oct-30 22:05 10,94 27,566 o
2005-Oct-31 01:56 10,94 28,137 e
2005-Oct-31 21:02 10,95 27,549 o
2005-Nov-01 00:53 10,95 28,126 e
2005-Nov-01 04:49 10,95 27,396 o
2005-Nov-01 20:00 10,95 27,523 o
2005-Nov-01 23:51 10,95 28,106 e
2005-Nov-02 03:39 10,95 27,513 o
2005-Nov-02 19:04 10,95 27,362 o
2005-Nov-02 22:47 10,95 28,073 e
2005-Nov-03 02:36 10,95 27,475 o
2005-Nov-03 21:45 10,96 28,035 e
2005-Nov-04 01:33 10,96 27,427 o
2005-Nov-04 05:24 10,96 28,019 e
2005-Nov-04 20:43 10,96 27,985 e
2005-Nov-05 00:31 10,97 27,369 o
2005-Nov-05 04:22 10,97 27,966 e
2005-Nov-05 19:40 10,97 27,925 e
2005-Nov-05 23:28 10,97 27,302 o
2005-Nov-06 03:19 10,97 27,904 e
2005-Nov-06 22:25 10,98 27,225 o
2005-Nov-07 02:16 10,98 27,832 e
2005-Nov-07 21:23 10,99 27,140 o
2005-Nov-08 01:13 10,99 27,750 e
2005-Nov-08 05:02 10,99 27,109 o
2005-Nov-08 20:20 11,00 27,046 o

Deimos

Tempo UTC Mag Dist " Q
2005-Oct-25 00:03 12,03 69,358 o
2005-Oct-26 21:28 12,03 69,574 e
2005-Oct-28 03:43 12,03 69,666 e
2005-Oct-30 01:08 12,03 69,689 o
2005-Oct-31 22:32 12,04 69,668 e
2005-Nov-02 04:48 12,04 69,592 e
2005-Nov-02 19:55 12,04 69,510 o
2005-Nov-04 02:12 12,05 69,362 o
2005-Nov-05 23:35 12,06 69,096 e



03/10/2005
Local: Gimonde - Bragança

Noites Transmontanas III

Este foi o dia do eclipse anular, cuja as impressões e fotografias podem ser lidas e vistas nesta página dedicado ao evento.

A última noite foi novamente passada na Quinta das Covas em Gimonde, não que antes tenhamos percorrido uma boa parte do Parque Natural de Montesinho à procura de lugar mais alto e escuro. Estávamos preparados para uma tradicional petiscada sob as estrelas, mas acabamos por fazê-la bem confortávelmente na casa de turismo rural onde a família Mota estava a passar a férias.

Com a simpática cortesia de desligarem todas as luzes de presença, tivemos um céu suficientemente escuro para passar mais algumas horas de qualidade, tendo o SQM lido valores semelhantes aos da noite anterior (20.90). Turbulência geralmente alta.

Desta vez montei o Sky90 na P2Z e fiz uma ronda descontraída por cerca de 2 dezenas de objectos com a ajuda do Sky Atlas 2000.0 (Tirion).
Ficaram para a memória a visão da "Pacman" NGC 281 e as nebulosidades em volta da "Bubble" NGC 7635, e de um cristalino duplo enxame Perseu.

Por volta da meia-noite a Adília ofereceu um chá e bolinhos que foi mais que bem vindo, após o qual fizemos mais algumas horas de observação visual e astrofotografia.

A noite foi também fria com o termómetro a rondar os 0 graus, mas mais suportável por ter sido bem mais seca, mas devido o dia ter sido bem comprido, todos estávamos já a sentir algum cansaço começando a arrumar pouco depois das 3 da manhã. Estiveram também o Mota, o Filipe e o Alberto.

Abaixo ficam 4 "instantâneos" astrofotográficamente falando, cada uma delas com uma única exposição de 5 minutos e focados a olho (usando o astigmatismo como gráfico) para servirem de recordação destes céus transmontanos, que espero poder retornar quando possível. As imagens foram "binadas" no Iris.

Duplo Enxame de Perseu (NGC 869/NGC 884)
Takahashi SKY90 f/4.5 (400mm)+Nikon D70 4,0" res
Takahashi P2Z
exp: 5' (1x300") iso 800 SQM 20.90

 

América do Norte (NGC 7000)
Takahashi SKY90 f/4.5 (400mm)+Nikon D70 4,0" res
Takahashi P2Z
exp: 5' (1x300") iso 800 SQM 20.90

 

Pleiades (M45)
Takahashi SKY90 f/4.5 (400mm)+Nikon D70 4,0" res
Takahashi P2Z
exp: 5' (1x300") iso 800 SQM 20.90

 

Nebulosas de Orion (M42/M43)
Takahashi SKY90 f/4.5 (400mm)+Nikon D70 4,0" res
Takahashi P2Z
exp: 5' (1x300") iso 800 SQM 20.90



02/10/2005
Local: Gimonde - Bragança

Noites Transmontanas II

Esta foi a sessão de observação na noite anterior ao eclipse, e tal como na anterior foi precedida de mais uma jantarada.

O local situava-se uma quinta de turismo rural , Quinta das Covas , onde vários do grupo se encontravam hospedados. Apesar de horizontes impedidos por serra e arvoredo, ainda possuia um céu que se poderia considerar escuro com o SQM a ler valores à volta de 20.90.

Bastante menos concorrida, pois muitos optaram por descansar para o eclipse na manhã seguinte, não deixou de ser uma sessão interessante tendo novamente posto o dob 20 cm ao serviço.

Comecei por observar alguns objectos não particularmente interessantes mas sim desafiadores devido a possuirem um brilho de superfície bastante baixo. Tratava-se de duas galáxias elipticas anãs que são satélites de M31, NGC 147 e NGC185 situadas em Cassiopeia. Estavam simultaneamente visíveis no campo da panoptic 24mm, mas com a NGC 147 bem mais aparente com visão indirecta, mas ambas apresentavam a característica forma elíptica.

Uma galáxia com brilho de superfície semelhante a NGC 147 trata-se da famosíssima galáxia de perfil NGC 891, que apesar da fama é um objecto complicado para pequenas aberturas. O 20 cm não teve grandes dificuldades embora não fosse de visão imediata, descrevendo-se com um fino risco de nebulosidade com o centro ligeiramente mais gordo. Aproveitei e fiz uma visita a outros objectos em Andrómeda (M76) e em Triângulo (M33 e NGC 752)

Depois fiz uma pausa e visitei o pessoal que por lá tinha montado telescópios, nomeadamente um refractor Televue 85 novinho em folha que conjuntamente com um Nagler 31 com filtro O3 deu a melhor imagem que tenho recordação de ambas as "Véus" a partilharem o mesmo campo na ocular, este telescópio é também uma bela peça de equipamento.

Depois e até cerca das 3 da manhã, andei na conversa e divertido a ver um certo astrofotografo a tentar apanhar seja lá o que conseguisse de um objecto de brilho superfície 19.9 (Galáxia anã de Dragão), após a tentativa ambos fomos dormir algumas horas para o grande evento.




01/10/2005
Local: Lama Grande - Parque Natural de Montesinho

Noites Transmontanas

O Nordeste transmontano ainda tem céus suficientes escuros para satisfazer o astrónomo amador mais exigente.
Aproveitando a ida para esses lugares por ocasião do eclipse anular que cuja a faixa central passava pouco abaixo de Bragança, não podia perder a oportunidade de disfrutar céus escuros e a grande altitude.

Depois de uma viagem com mais de 500 kms e após um grande jantar, muitos rumaram para a Lama Grande que situa bem dentro do Parque de Montesinho, perto da fronteira com Espanha. Este local encontra-se a 1400 metros de altitude, tendo sido chamado à atenção por uma astrónomo amador (Felisberto Soares) que conheci na Astrofesta 2005 que costuma para lá ir todas as Luas Novas.

Chegamos numa grande e poeirenta caravana pouco depois da meia-noite, instalando-se uma grande confusão por o local não ter muito espaço para tanta viatura, mas a maior parte acabou por se instalar um pouco por todo o lado que houvesse os horizontes mais amplos.

O céu era excelente - verdadeiramente topo-de-gama. Apresentava uma transparência que apenas a altitude pode proporcionar, embora não tenha medido a magnitude limite, o SQM leu valores que variaram entre 21.40 e 21.45 que é o recorde até ao momento. Estes valores permitiram observar a galáxia M33 em Triângulo com a vista desarmada, e originar potencial confusão no reconhecimento das constelações. Apenas se via "lá em baixo" a abóbada de luz da cidade de Bragança, que de resto não incomodava muito.
Apesar do céu escuro, houve bastante humidade para o final da noite tendo então a temperatura baixado para perto dos 0 graus, tendo um termómetros marcado -2 e outro 0 Celsius, bastante frio para o que se está habituado para esta altura do ano. A turbulência também não esteve das melhores.

Foi uma noite para encher a vista - literalmente. Apenas utilizei o meu dob de 20cm e os binóculos Fujinon FMT-SX 7x50, com o apoio do Sky Atlas 2000.0 (Tirion).

Sob um céu desta qualidade achei que deveria revisitar visualmente muitos dos objectos mais conhecidos e brihantes, tendo realmente valido a pena, pois foram as melhores vistas que tive até ao momento de qualquer um deles com o meu equipamento.

Comecei pelas grande nebulosas e remanescentes de supernova na constelação de Cisne. Todas elas eram imediatamente perceptíveis sem qualquer filtro, embora com o UHC ajudasse a observar as nebulosas em toda sua extensão, tal e qual como nas fotografias. A nebulosa "Crescente" (NGC 6888) apesar de não ter descernido a forma de meia-lua era absolutamente notória com e sem filtro. Passear com panoptic 24 por Cisne foi um sem-acabar de nebulosidade e estrelas. Absolutamente fantástico. As "Véus" apresentavam-se descaradamente contrastadas num fundo escuro e banhado de estrelas, mesmo as suas partes mais ténues como a nebulosidade que se encontra na imensa área entre os dois segmentos.

Não dava para acreditar a extraordinaria quantidade de nebulosidade que se via nas Pleiades. A minha primeira reacção foi de limpar a ocular, pois julguei que tivesse completamente embaciada! Uma vista absolutamente incrível, nebulosidade por todo o lado, sendo possível ver até os cirros em Mérope. A olho nu era perfeitamente óbvia a "nuvem" que rodeava este enxame.

O que mais me espantou em Andrómeda não foi propriamente a M31, mas sim a M110. Esta galáxia ganhou uma forma e brilho como nunca antes tinha visto - enorme! com um também enorme e brilhante núcleo . A M31 via-se gigantesca, com as duas faixas de poeira sem grande esforço.

O quinteto de Stephan não é objecto para um telescópio de 20cm, mas no entanto posso colocar como observado com um pequeno ponto de interrogação, mas obviamente sem resolver qualquer uma das galáxias.

O resto da noite foi passado com repetidas visitas aos objectos anteriores e a outros como a M27, M57, M42, M81/M82, M33, NGC 7789, NGC 281, NGC 2392, M35, M36, M37, M38, entre muitos outros que ia saboreando à deriva, intervalando com o aquecimento e desambaciamento das oculares que foram bastante vítimas da humidade e frio, aproveitando para fazer visitas pelos vizinhos, que seguramente se maravilharam tanto com eu.
Noites destas são excelentes oportunidades para observar objectos normalmente invisíveis e para apreciar em todo o seu esplendor os mais brilhantes e conhecidos.

Saimos do local depois da 5 e meia da manhã a tempo de ir tomar uma grande pequeno almoço no hotel antes de ir finalmente dormir - nada como uns croissants acabadinhos de sair do forno, eu o Luís Evangelista estivemos cerca de 1 hora a comer e a conversar... de manhã deu para verificar que provavelmente tinha trazido quase toda a terra de Montesinho agarrada ao carro.