Novembro 2005

05/11/2005
Local: Alpiarça

Vale da Lama IV

Fim de semana de crescente lunar, que no final de dia esteve numa bela conjunção com Vénus que também apresentava uma fase crescente mas mais avançada, mas com um curioso efeito de fase cujo o brilho atenuava gradualmente até ao terminador da "noite" venusiana.

Quando cheguei ao local perto das 18 horas já lá se encontravam vários companheiros da Atalaia com os telescópios montados e prontos para mais uma noite de observação. Entretanto já o Paulo Barros estava a fazer as brasas para mais uma petiscada com castanhas, febras, entremeadas e chouriça, tudo isto regado com uma água-pé da mesma cooperativa do famoso abafadinho olho-de-lebre que escorregou como uma pomada, uma cortesia de Mário Santiago.

A noite começou com o céu completamente limpo, mas com bastante humidade que começou a sentir-se bem cedo. Sem dúvida uma das noites mais húmidas dos últimos meses, e se não fossem os Kendricks não teria sequer tido hipótese de ter começado. Com estes aquecedores quase no máximo fez infelizmente a bateria apenas durar até às duas e meia da madrugada, mas ainda chegou para meia dúzia de horas de observação e fazer alguns esboços.
O céu em termos de escuridão esteve semelhante à última vez com uma média de leituras à volta de 20.80 mag/". A turbulência variou entre mediana e alta e a temperatura chegou ao grau positivo no termómetro do SQM que não é muito de fiar.

Durante toda a noite sucederam-se diversos "flashes" das Taurídias, presumívelmente provenientes de partículas do cometa periódico curto 2P/Encke. Foi um verdadeiro fogo de artifício, só que invertido, tendo algumas delas acabado com brilhantes explosões e originando por vezes longos e grossos rastos.

Grande parte do pessoal andou todo o serão entretido a capturar imagens que se podem ver aqui.

Tendo ido de improviso, não tinha propriamente preparado uma lista de objectos a observar, tendo essencialmente rondado objectos à volta do meridiano central, mas desta vez usei o Sky90.
Os atlas utilizados foram o Sky Atlas 2000.0 (Tirion)e o Bright Star Atlas (Tirion, Skiff). As oculares utilizadas foram a panoptic 24mm (34x) e a nagler 9mm (91x).

A sessão começou por dar um pequeno toque na colimação do Sky90, que estava ligeiramente fora (os anéis estavam mais brilhantes num dos lados), que foi coisa para 5 minutos, mas tendo aproveitado no processo para ver a linda e contrastante dupla amarelo-azul Almach (Gamma Andromedae) .

Depois de ter passado pelo globular M15 e pela a planetária Helix, revisitei a constelação do Escultor para uma observação mais cuidada e para fazer um esboço da área desta grande e brilhante galáxia. Só quando passei para o objecto seguinte é que noite que a tinha esboçado com o filtro UHC colocado, que tinha sido usado para observar anteriormente a Helix.
É perfeitamente normal as galáxias quando observadas através de pequenas aberturas sejam, bem, muito ténues, daí não ter estranhado muito, mas apesar de filtrada, a luz ainda foi suficiente para fazer o esboço abaixo.

Para além todos os esboços parecerem estar a precisar de um "flat" também precisa de mais jeitinho. O papel (mesmo o espesso) e humidade não ligam muito bem, mas os próximos só podem ficar melhores.
O acto de esboçar qualquer coisa faz meia hora passar-se num instante, mas uma coisa é certa, ficamos a conhecer o objecto de uma maneira bem mais aprofundada.


NGC 253
Takahashi SKY90 f/9 (800mm) Pan24 (34x)

A NGC 55 também teve uma visita sub-decimétrica, mas encontrava-se numa posição que já requeria alguma acrobacia, estando já na altura pouco acima da copa das árvores, de qualquer modo era ainda detectável grande parte do seu tamanho e forma embora notóriamente mais ténue que a galáxia anterior. Também novamente ficou por ver a NGC 300.

O objecto seguinte tratou-se da pequena galáxia Seyfert (núcleo activo) M77 em Baleia (Cetus). A sua descrição visual é bastante aproximada do esboço baixo. Núcleo muito brilhante e pontual com um ténue halo arredondado em volta. Um pouco mais acima encontra-se a verdadeira dor de cabeça da maratona de Messier - M74 - Julguei que talvez não tivesse sorte com tão pouca abertura, pois tem 14 de brilho de superfície e uma magnitude total de 9.5, mas foi bem mais fácil do que estava à espera, embora não tivesse sido imediatamente detectada. Pode-se descrever como uma pequena e redonda e muito ténue, mas no entanto era óbvio um tamanho aparente maior que a galáxia anterior.

Ainda em Peixes tive oportunidade de observar no Obsession 15" polegadas um grupo NGC 507 de galáxias na parte mais a norte de Peixes já entre o Triângulo e a Andrómeda. Três foram fácilmente visíveis.


M77
Takahashi SKY90 f/9 (800mm) Nag9 (91x)

O objecto seguinte é uma nebulosa planetária que me despertou a atenção depois de a ter primeiramente observado no Obsession, que diga-se ter sido uma das melhores imagens que tive de um objecto desta natureza. A NGC 1501 era praticamente redonda e de brilho muito uniforme (a cor não me recordo defini-la) mas ligeiramente menor no centro dando-lhe um aspecto anular mas não tão pronunciado como na M57, no seu meio brilha uma intensa e algo açambarcadora estrela central (do tipo WC estrelas gigantes quentes a perder massa vertiginosamente), que apesar de brilhar a apenas 14.4 de magnitude esteve de facto incontornável. É um excelente objecto para grandes aberturas e não parece sequer precisar de filtro. Está a 4800 anos luz. Não conhecia este objecto e é seguramente mais um a revisitar apesar de apenas entrar no Herschel 400 e "Finest NGC" de Dyer.


NGC 1501
Takahashi SKY90 f/9 (800mm) Nag9 (91x)

Também na despercebida constelação da Girafa (Camelopardalis), que curiosamente deve o nome não propriamente à figura do bicho mas sim por esta zona ser um "deserto" de estrelas dai o "Camelo" segundo Bartschius que a delineou, fica a curiosa Cascata de Kemble, segundo o Padre franciscano Lucian Kemble, astrónomo amador e divulgador canadiano. Esta cadeia estende-se por quase 3 graus, sendo um interessante objecto binocular ou para telescópios com muito baixa magnificação . Esta cadeia termina no pequeno mas curioso enxame aberto NGC 1502, que é dominado por um par de estrelas gémeas muito brilhantes, rodeadas de outra dezena delas espalhadas aleatóriamente. Infelizmente este enxame não conseguiu ficar na imagem no início do relato, que foi registada em condições deploráveis daqui do pátio.

Para a memória fica a M42 e M43 em technicolor no Obsession: verde e dourada respectivamente - o detalhe estava incrível.