Outubro 2006

28/10/2006
Local:Vale da Lama - Alpiarça

Vale da Lama VIII


Swan e o M13

Mais uma ida ao Vale da Lama, que apesar das recentes inundações na região ainda se encontrava transitável.
O SQM marcou uma média de 20.70, reflexo de uma noite não muito escura, comum céu um de aparência leitosa e nuvens altas traiçoeiras sempre à espera de arruinar uma exposição, mas que serviram de pausas para simplesmente olhar para o céu. A humidade acentuou-se até ao inicio da madrugada, mas depois a noite ficou serena e agradável. Como sempre, boa companhia e a tradicional petiscada de grelhados. As imagens resultantes desta noite podem-se ver aqui .


Cometa C/2006 M4 (SWAN)

Adoro quando os cometas fazem isto! (clique na imagem - click on the image)

Andei a seguir com o 7x50 este cometa nos dias anteriores aqui do Pátio desde que entrou em"outburst", e não lhe dava mais de magnitude 5.
Parecia que já não tinha mais nada para dar nesta sua passagem à volta do Sol, e ei-lo fulgurante como nunca. A imagem foi registada durante cerca de uma hora, sendo esta a posição do cometa pelas 20:07 TUC.

Um contra-tempo que quase foi fatal. Esqueci-me de acertar a data e local na folha de cálculo que utilizo para calcular a hora sideral para alinhar a montagem. Os parâmetros que dei eram da Atalaia faz duas semanas atrás... (ver a entrada mais abaixo). Escusado será dizer que as imagens sofreram alguma rotação. A rotação de campo é quase impossível de se detectar de fotografia para fotografia, só quando se regista para empilhamento é que se vê o efeito, mas não foi nada que IRIS não resolvesse.

A cauda de poeira que a imagem mostra tem um tamanho impressionante, estendendo-se ao longo de quase 3 graus (6 diâmetros da Lua ou do Sol), embora muito pouco desta fosse visível nos binóculos 7x50, e muito leves indicios no 90mm a 21x, talvez devido ao luar e também a alguma luminosidade naquela área. O brilho do coma era ligeiramente semelhante ao enxame M13 que estava alguns graus mais acima. Tentei vê-lo a olho nu várias vezes sem sucesso.

A título de curiosidade, o cometa encontrava-se a 1.07153668 AU (160,299,606 km) que é pouco mais que a distância da Terra ao Sol. Sabendo que o Sol tem 1.39 milhoes de quilómetros diâmetro com um tamanho aparente de 32' podemos estimar fácilmente com regra 3 simples o tamanho real da cauda registada na imagem vista da nossa perspectiva: cerca de 5 milhões quilómetros, embora a cauda tenha o dobro do tamanho mesmo quando fotografada com pequenos telescópios. Um pormenor interessante é que apesar de todo este aparato em que parece que se está a desfazer todo (o que por vezes acontece), típicamente um cometa apenas perde entre 0.1 e 1% da massa em cada órbita.

A imagem de grande campo no início mostra o brilho relativo deste cometa quando comparado com enxame globular M13 em Hércules, que está situado mais acima à 1 hora, e apresenta curiosamente uma cor muito aproximada. As condições já não eram muito favoráveis, com o cometa e Hércules a afundarem-se no horizonte, mas ainda se pode ver com boa vontade um leve indicio da extensa cauda.

Enxames abertos M35, NGC 2158, IC 2157 e IC 2156

Na constelação de Gémeos, a 2800 anos luz , 13000, 6120 e ???? anos luz respectivamente. Os dois primeiros enxames têm a mesma dimensão mas estão separados entre eles 10000 anos luz. É fácilmente detectável com vista desarmada e uma vista impressionante em binóculos ou telescópios a baixa magnificação, embora a diferença de cor só seja bem notória com grandes aberturas - o NGC 2158 é um bom exemplo de "reddening" causado pela poeira interstelar pois nem é um enxame muito velho.
Os IC 2157 e IC 2156 são praticamente imperceptíveis no 90mm. O IC 2156 é um ilustre desconhecido, muito provavelmente apenas um asterismo que é aquela pequena concentração às 11 horas do IC 2157. A estrela brilhante que compôe o ramalhete e dá uma ajuda a equilibrar as cores é a 5 Gem que é uma gigante K0 a brilhar a quase 6 de magnitude.


M25, NGC 2158, IC 2157

Barnard 33, IC 431, IC 432, NGC 2024, IC 435, IC 434, NGC 2023 e NGC 1990

Decidi incluir esta imagem sofrível duma das regiões mais populares da astrofotografia apenas porque estive mais de duas hora a fotografá-la. Foram 30 exposições de 2 minutos cronometradas manualmente com o consequente desligar/ligar da máquina fotográfica (devido à maldição do RAW Nikon), isto foi o que sobrou depois de ter perdido mais de 10 exposições por causa de nuvens sorrateiras. Uma hora de exposição está visto que não chega, muito menos com uma câmara praticamente cega em h-alpha. De qualquer modo fica o resultado do momento.

Raras foram as vezes que vi visualmente a Cabeça do Cavalo (Barnard 33) ou melhor a nebulosa escura da nebulosa de emissão IC 434, mas a "Flame" (NGC 2024) é prontamente vista no 20cm e 90mm. As IC 431, 432, 435 são nebulosas de reflexão com a sua cor típicamente da estrela que as ilumina. As duas grande luminárias são duas jovens supergigantes azuis do cinturão de Orion : a Alnitak (zeta 800 anos-luz) e a Alnilam (epsilon 1300 anos-luz) cujo o clarão azulado será o inicio do NGC 1990 que se espalha em toda a volta da estrela.


M25, NGC 2158, IC 2157

• elaborado ao som de Quartetos de cordas "Haydn" K.387,K.421, K.428, K.458 K.464 e K.465 de W.A.Mozart pelo Quarteto Hagen (Deutsche Grammophon)



14/10/2006
Local:Atalaia (Montijo 38º44N 8º48W)

Atalaia XXVII

O SQM mediu 20.30 de média, muita humidade, com a Lua a nascer pela a uma da madrugada. Chá e bolos por cortesia do Gregório.

Cometa C/2006 M4 (SWAN)

O primeiro objectivo foi observar o cometa mais brilhante no nosso céu, o C/2006 M4 (SWAN).

As estimativas do IAU apontavam para quase 8 de magnitude , mas pareceu-me bem mais brilhante sendo semelhante mas para menos à estrela de mag 6.6 que se encontrava lá perto (a mais brilhante da imagem). A 21x O coma era incolor e tinha forma oval e apresentava-se muito condensado, mas sem qualquer cauda visível.

Este cometa aparenta ter uma órbita hiperbólica, que quer dizer que provavelmente está destinado a saltar fora do sistema solar devido a pertubações que deve ter sofrido ao passar perto dos planetas (os suspeitos do costume são os gigantes gasosos). Outra razão poderá ser de se tratar um visitante interestelar, mas a frequência de visita deste cometas estima-se em 1 em cada 450 anos.

No momento do registo estava a mover-se 2 graus por dia em A.R, distando pouco mais de 160 milhões de quilómetros da Terra, tendo sido esta altura em que se apresentou mais brilhante.

Mais informação e bem melhores imagens no excelente http://cometography.com/lcomets/2006m4.html

A imagem ao lado mostra uma cauda com dois terços de grau de comprimento, e a típica cor verde-esmeralda (o mecanismo de emissão mais importante é a fluorescencia) que apesar de tudo conseguiu furar as condições adversas de observação tais a baixa altitude (10º), neblina, poluição luminosa e eclipses por aglomerados de carbono. E também não me parece ter ficado lá muito focada. Foram 5 exposições de 2 minutos cada.

Enxame de Galáxias Abell 426 (Perseus A)

É necessário uma considerável dose de boa vontade para considerar a imagem abaixo estéticamente interessante. Nunca tinha fotografado um enxame de galáxias a mais de 200 milhões anos-luz e por diversas razões : exceptuado os enxames do Superenxame Local (Virgo), estes típicamente são muito ténues e sendo as galáxias mais pequenas que cagadelas de mosca sobretudo na escala de resolução em que foi fotografado (4") rondando os membro mais brilhantes os 7, 8 pixels de tamanho, o que mostra bem o que se pode esperar de um enxame de galáxias. A imagem tem uma exposição total de 28 minutos (7x4 minutos), tempo que é deveras insuficiente para este tipo de objecto. O Norte está para cima em ambas as imagens.

É relativamente fácil de apontar, estando localizado na constelação do Perseu a dois dedos da Algol (beta Persei).
Infelizmente mas como tinha esperado, não consegui ver nenhuma, nem a mais brilhante NGC 1275 que começa logo com apenas magnitude 12.7, e estou seguro que estive a olhar para as sujeitas por largos minutos (MSA carta 98). É um excelente alvo para grandes aberturas, como podem ver nesta espantosa página de observação.

Segundo o grande catalogador astrónomo George Abell que o baptizou com um número após ter perdido as pestanas nos anos 1950s a examinar visualmente as placas fotográficas do Schmidt de 48" do Monte Palomar, este enxame é rico (II-III) pela sua curiosa mas inteligente classificação (galáxias vizinhas até 2 magnitudes menos brilhantes que a terceira mais brilhante) tem um "redshift" médio de z=0.01790 que segundo a actual idade do Universo o coloca a pouco mais de 250 milhões anos-luz espalhando mais de 200 galáxias moderadamente brilhantes num diâmetro de 8 graus de céu!, claro que este número aumenta e muito conforme o instrumento utilizado para fazer imagem.


Abell 426

A galáxia mais brilhante NGC 1275 que está praticamente no meio da imagem, também conhecida por Perseus A, é uma gigante elíptica peculiar que domina o Enxame de Perseu. Esta galáxia é peculiar por diversas razões: tem um núcleo activo (tipo Seyfert) com jatos, formação recente de estrelas, é uma potente fonte de rádio (3C 84), de raios X por talvez estar no meio de uma colisão/digestão.
São muitas galáxias em apenas 1 grau quadrado de imagem, tendo depois de assinalar quarenta e muitas delas, pois existem mais ténues e não visíveis na imagem, com a ajuda do Guide8 deixado por contente a ver como ficou a distribuição das galáxias mais brilhantes deste enxame. Este tema de enxames de galáxias é de vital importância para compreender a organização do Universo na grande escala, principalmente os mais longiquos que mostram como era o Universo e galáxias no principio dos tempos.



05/10/2006
Local:Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Millennium Star Atlas


Millennium Star Atlas e Pocket Sky Atlas

A observação passada foi também a "primeira molha" do recentemente adquirido Millennium Star Atlas da Sky Publishing/ESA.

É conveniente fazer uma pequena advertência de que sou um grande apreciador e utilizador de cartas estelares impressas em papel. Este tipo de suporte pouco a pouco vai-se tornando extinto nos habituais acessórios de campo, face à cada vez maior utilização de GOTO's ou sistemas de apontagem assistida. Considero o caminho para encontrar os alvos por vezes tão importante e fascinante como o alvo em si, e como sou apreciador dos modos tradicionais ainda que lentos, e em especial aqueles que são simples, eficazes, e que nunca falham, cá ficam as minhas impressões iniciais.

O Millenium Star Atlas (MSA) é um conjunto de 1548 cartas baseadas no catálogo Tycho onde estão impressas cerca de 1 milhão de estrelas, conjuntamente com informação adicional do catálogo Hipparcos cobrindo a totalidade dos dois hemisférios. Cada carta cobre um área de 5.4ºx7.4º, área semelhante ao campo de vista através de binóculos de 7x50 com uma escala de 100 segundos de arco/mm, 16,7 minutos de arco /cm, 1 grau tem 3,6 cm. Os volumes têm 33x23.5x3.2 cm e pesam pouco mais de 2kg cada.

O MSA está dividido em 3 volumes, cobrindo cada um deles 8 horas de ascenção recta de pólo a pólo. Tal arranjo pode dispensar pelo menos um volume na bagagem a levar, que no caso de se querer andar com os 3 volumes e a sua caixa pode atingir uns pouco portáveis 6,7kg, o que curiosamente na altura da sua primeira edição em 1997, era o peso que alguns computadores portateis começavam a deixar de pesar. Nos dias de hoje, tudo o que lá está impresso e mais informação suplementar pode vir dentro de um bolso bem pequeno da camisa.
Mas por muito que aprecie a conveniência do meu Palm Tungsten ou portatil, simplesmente não os acho adequados para os utilizar em locais de observação visual, não só pelo tamanho e escala mas também por causa da retro-iluminação destes dispositivos que arruinam a visão nocturna, a do seu dono e a dos seus vizinhos.

Apesar destes atlas serem típicamente considerados uma referência melhor adequada a observadores avançados com telescópios de grande abertura, considero antes que é uma representação quase fiel das estrelas até uma magnitude estelar limite 11 que podem ser prontamente observadas através de telescópios e binóculos com cerca 50-100 mm de abertura, o que me faz lembrar que observadores atrás referidos considerarem estes telescópios meros buscadores... De qualquer forma assenta como uma luva em pequenos instrumentos. O nível de profundidade estelar mostra suficientes estrelas para permitir colocar com grande exactidão qualquer objecto visivel ou invisivel no centro do campo de uma ocular.
Também considero este atlas muito útil na observação de cometas e asteroides brilhantes, pois existem impressas suficientes estrelas de comparação para fazer estimativas, podendo-se também desenhar a sua posição e anotar as estrelas mais semelhantes.

As estrelas com movimento próprio apreciável em algumas décadas possuem setas de diversos comprimentos que mostram esse a direcção e dimensão desse movimento, garantindo muita longevidade deste atlas. As estrelas variáveis (8200) são também anotadas de maneira a dar ideia da magnitude de variação, usando um círcunferência estilizada em volta das estrelas (sólido, ponto, traços). As estrelas duplas (22000) também têm uma notação "sui generis ", um tracinho que mostra a orientação e separação aproximada.
Acho estas notações de estrelas bastante úteis no campo e na falta de informação escrita mais detalhada. É raro parar numa carta e não procurar que mais existe para ver naquele rectângulo de céu.

A projecção usada foi a cónica simples segundo Raisz (1934), que permite medir ângulos com erros inferiores a 0.2º em todas as cartas. Segundo a extensa introdução, a exactidão das posições das estrelas é maior que o provavel envelhecimento ou deformação do papel depois de ter apanhado alguma humidade. O papel utilizado embora considero decente (semelhante ao do Uranometria), também não parece muito adequado para expôr aos elementos. Para esse tipo de utilização isso teria de ser plastificado. O papel não tem também suficiente espessura para ser absolutamente opaco pois consegue-se ainda ver estrelas mais marcadas do verso da página, mas não me parece ser realmente incomodativo.
Um primeiro problema surgiu quando expus estes volumes a um céu aberto notóriamente húmido.
De alguma forma os livros mudaram a sua volumetria tanto devido ao uso como pela humidade, já não cabendo os três na sua caixa. que pelo menos no meu caso, foi feita com tolerância demasiado apertada. A capa embora macia, parece aguentar bem até uma camada de àgua em qualquer estado físico, mas impressão em dourado já começou a desvanecer. Inicialmente, tinha pensado por capas de plástico, mas a caixa não me permitia, mas agora já é tarde demais, mas o tempo com certeza dirá mais acerca da durabilidade e qualidade de construção.

No que diz respeito a objectos não-estelares, não existe nenhum index de objectos de céu profundo catalogados usando números, exceptuando a lista de Messier e listas de objectos estelares e não-estelares do céu profundo que possuem um nome comum popular, sendo estas reimpressas no final de cada um dos volumes. Adicionalmente no volume I, vem um index para todas as estrelas com letra grega atribuída. Também neste volume se encontram tabelas referindo estrelas mais brilhantes, as mais próximas, as mais rápidas (incluindo um esquema pormenorizado da trajectoria da estrela de Barnard e as duplas mais brilhantes.
Não possui também quaisquer cartas de pormenor, como por exemplo as que o Uranometria tem para as áreas de grande concentração como no caso zonas muito populadas como as do plano da nossa Galáxia ou enxames de galáxias ou. Os apreciadores dos últimos podem considerar um aspecto comparativamente negativo.

Em lado nenhum encontrei escrito o número exacto de objectos de céu profundo impressos, (talvez por ser bastante inferior ao do Uranometria), mas pela leitura da introdução que diz ter >10000 objectos não-estelares pode-se ter as seguintes contagens:


Sky Atlas 2000.0, Uranometria, The Observer's Sky Atlas, Millennium Star Atlas e Pocket Sky Atlas

Não existe até à data qualquer manual de referência, dito de companhia, mas o volume 3 do Uranometria (Deep-sky Field Guide) é perfeitamente adequado para cumprir tal função, listando até três vezes mais objectos que os presentes no MSA.
Alguns podem achar poucos objectos, mas para observação visual acho o número mais que suficiente para qualquer abertura, com a provavel excepção de projectos de observação especiais, mas nesse caso acho que vou ter um grande e raro prazer em os desenhar.

Antes de o levar para o terreno, pratiquei encontrar as cartas de diversos objectos conhecidos para me habituar à sua organização. Achei muito fácil de encontrar qualquer dos objectos que tenha procurado, mesmo só tendo uma vaga noção da sua localização. A divisão em bandas de declinação, com cartas contiguas em A.R é extremamente lógica e natural. Em uso efectivo no terreno veio realmente a comprovar-se que este atlas é prático e eficaz.
Embora seja possível usar apenas as cartas index no final de cada volume, a escala e detalhe não me é muito prática para apontar com buscadores unitários como o QuickFinder ou o Telrad. Para essa tarefa utilizo o Karkoschkae/ou o também recente Pocket Sky Atlas, que sempre serviram de excelentes apontadores.

É difícil não concluir que é o melhor atlas em papel de magnitude 11 que existe, pois parece ser o único correntemente em impressão. A única alternativa que lhe pode concorrer são cartas geradas por um planetário (Guide8, Skymap ou outros), mas se se fizer bem as contas ao papel, tinta e tempo que demora a fazer um que seja minimamente equivalente em qualidade, é capaz de não ser muito assim tão boa ideia, ou por outras palavras, ambas as soluções não se substituem mas sim completam-se. O preço, esse, é a de uma boa ocular ploss, ou de qualquer outra desculpa de valor semelhante.