Novembro 2006

Calar Alto

2006.11.18-19
Calar Alto

A primeira noite

No local (que são casas de mineiros restauradas) em que estivemos hospedados em Las Menas de Serón o céu era bastante escuro apesar ou talvez devido a estarmos rodeados por montanhas e já a mais de 1500 metros de altitude.
Mesmo com uma viagem de quase 1000 km em cima não nos foi possível deixar passar impune aquele céu sem uma observação. Todos os telescópios do grupo sem excepção foram montados, e não eram nada poucos: um obsession de 15", um dob de 8", um maksutov-newtoniano de 8" em cima de uma G11, um Takahashi Sky90 , um TMB 80mm e diversas pequenas montagens com câmaras a fotografar. Apesar das luzes do local (que entretanto foram gentilmente apagadas pelo o responsável do local), o céu esteve de grande categoria, com, entre outros objectos, a cabeça do cavalo de visão directa no Obsession, isto tudo no meio da pouco habitual cena de ver as constelações a nascerem no cume do massiço mas já bem altas a Oeste. Fomo-nos deitar cedo para o longo dia e noite que se seguia.

Um dia no Observatório de Calar Alto

O Observatório de Calar Alto está situado na cadeia de montanhas andaluza de Los Filabres, que serve de imponente pano de fundo à cidade costeira de Almeria. Com uma elevação de 2160 metros e numa região árida e semi-desértica proporciona cerca de 200 noites de céu limpo por ano. O recinto de 100km quadrados está naturalmente rodeado por belas paisagens. A Sul via-se o Mediterrâneo, a Norte uma paisagem quase de "Western" americano e a Oeste os cumes nevados da Sierra Nevada. O dia esteve solarengo, com apenas algumas nuvens altas, mas naquela altitude já o ar é bem fresco. Passou também por lá uma migração do que pareciam ser abutres, que aproveitavam as correntes ascendentes para ganhar altitude, mas parecia que tinha morrido alguma coisa por lá pois assemelhava-se bastante ao típico voar em círculos à espera do almoço.

Observatório de Calar Alto

Com a generosa autorização do director do Observatório dr. João Alves (português!), e com a amável orientação e paciência do nosso anfitrião Juan Capel foi-nos oferecida uma memorável visita a alguns dos telescópios e instalações. Não existe agradecimento que chegue por nos terem tornado realidade esta visita. Ver mais fotografias do Observatório.

Zeiss de 3.5 metrosO observatório foi iniciado em 1973 e aloja neste momento cinco telescópios: um Schmidt de 0.8m, três Ritchey-Chretien de 1.2, 2.2 e 3.5 metros, todos eles manufacturados pela a prestigiosa Zeiss (não seja este um observatório do Instituto Alemão para a Astronomia Max Planck) e ainda o telescópio de 1.5m (Reosc) do observatório Nacional de Madrid. Passamos por quase todos eles e entramos na cúpula do Schmidt 0.8m e na verdadeira catedral tecnológica do 3.5m.

O mais imponente certamente foi o Zeiss de 3.5 metros, no qual estivemos numa demorada visita, tendo percorrido a sala das máquinas, a sala de "banho" do espelho e finalmente a grande cúpula.
Com uma massa de 230 toneladas foi último da geração de telescópios com ume espelho monolítico (espelho de 1 só peça), tendo este um impressionante peso de 13 toneladas. Desenhado com inspiração no gigantesco telescópio Hale de 5 metros do Monte Palomar, também foi o último dos telescópios gigantes a utilizar uma montagem equatorial do tipo "ferradura", que de resto é bastante evidente na imagem ao lado.
Este espelho de 3.5m é um f/3.5 feito de zerodur que possui características de baixo coeficiente de expansão, garantindo uma boa estabilidade térmica, sendo também muito versátil nas configurações ópticas, podendo ser utilizado em foco primário, Coudé ou Cassegrain com um engenhoso e rápido sistema de configuração.

Não me recordo de ver uma máquina de 230 toneladas a mover-se tão graciosamente e ao mesmo tempo tão silenciosamente, elegância da engenharia alemã no seu melhor com certeza. O operador teve a grande amabilidade de virar para nós o telescópio e abrir as pétalas que protegem o seu grande espelho. Ainda tivemos a oportunidade de observar o carregamento de nitrogénio líquido dos 4 CCDs de 4mp que cobrem cada um 45 minutos de arco na configuração "wide-field". O telescópio, acessórios, secundários, CCDs, espectrógrafos eram para nós familiares mas todos numa escala dantesca. Um verdadeiro monumento.
Um agradecimento especial ao astronómo que adiou em meia hora o início da sua sessão devido à nossa visita.

Ver mais fotografias deste telescópio.

Noite no recinto do 1.23m

Logo após a visita, dirigimo-nos para o recinto do Zeiss 1.23 que se encontra no momento desactivado, tendo sido por essa razão o local escolhido de modo a perturbar o menos possível a actividade do observatório. Por vizinhos a algumas dezenas de metros os Zeiss 2.2m e o mais distanciado de 3.5m, ambos com intensa actividade durante toda a noite. Este recinto é um dos pontos mais alto do observatório quase a par do marco geodésico, tendo um largo horizonte e uma vista geral de todo o observatório, bem no meio da sem sombra para dúvida maior concentração de telescópios Zeiss do planeta.

Chegámos antes das 18:00 horas ainda com o Sol acima do horizonte e saímos um pouco mais de 12 horas depois. Foi uma longa noite que chegou para fazer de quase tudo: tirar fotografias, comer, beber, conversar, olhar através dos telescópios ou simplesmente para o céu.

Noite no recinto do 1.23m A noite no observatório como esperado, foi de alguma dureza apesar de ter havido temperaturas mais altas do que nos dias que a circundaram. Segundo os dados da estação meteorologica do observatório, o termómetro não baixou dos 4 graus celsius, mas essa era a temperatura do ar _sem_ vento. Durante toda a noite soprou uma brisa nos locais menos resguardados que por vezes soprava com algumas rajadas de enregelar verdadeiramente os ossos, a pouca ou nenhuma humidade felizmente não acentuou mais o desconforto. Apesar de tudo, não foram propriamente condições extremas e a maioria aguentou a sessão ininterruptamente.

Foi algo decepcionante verificar os estragos que o inexorável avanço da poluição luminosa já causou na maior parte de todo o baixo horizonte, fazendo perder a classificação de lugar muito escuro, pelo menos para observações no espectro visual, mas não alterou em muito a qualidade científica do local pois fazem estudos com instrumentos que não são muito afectados pela poluição no visível, nomeadamente com utilização de espectrógrafos.

O SQM chegou a um valor máximo de 21.40, não atingido os valores máximos de 21.50 verificados em Montesinho, Bragança e Pulo do Lobo, Serpa. Mas 2000 metros continuam a ser sempre 2000 metros e a transparência que daí advém garantiu um céu de 6.5-7 de magnitude nas áreas de céu mais escuras, de modo nenhum abaixo de espectacular, ainda com uma extraordinária turbulência extremamente baixa sendo esta menor que 1 segundo de arco!.
Surgiram algumas nuvens mas foram de pouca dura sendo de boa maneira aproveitadas para pausas para conversar, dar um giro pelos restantes convivas, e claro petiscar. A cúpula aberta do nosso vizinho de 2.2m foi sempre um bom indicador que noite era para continuar.

Adicionalmente ao equipamento acima mencionado, juntaram-se a nós meia dúzia de astrónomos amadores espanhóis com um estratosférico Obsession de 25" e ainda outro telescópio a registar imagens de planetas.

A primeira parte da noite andei entretido, assim como muitos companheiros, a tirar fotografias com a objectiva de 50mm, das quais se podem ver muitas aqui e aqui. De seguida fui dar uma boa volta a objectos que vale a pena rever sob céus escuros: as nebulosas em Cisne, as Véus, America do Norte e Pelicano, Crescente e toda região até à Deneb, assim como a constelação do Cocheiro e Cassiopeia, com os seus enxames e nebulosas. Também dei um olhadela no cometa Swan que estava na altura muito próximo da zeta aquilae (no 25" tinha uma pujança impressionante).

Noite no recinto do 1.23m No meu canto esteve o TMB de 80mm do Alcino e filho Rodrigo, tendo nós em certa altura enveredado pela observação integral de todos os objectos sugeridos em algumas das cartas do Karkoscha. Achei divertido conseguir comparar directamente as cartas com o céu. Viam-se todas as estrelas directamente e sem dificuldade chegando até achar ser demasiado fácil de encontrar e observar.
Digno de registo ficam a ténue e pequena galáxia satélite de M81, NGC 2976, a surpreendentemente grande NGC 2403 em Camelopardalis, a pequena galáxia NGC 1023 e a ainda mais pequena nebulosa NGC 1491, ambas em Perseu.

Nos desafios pessoais (por vezes, reconheço, um pouco exagerados), tentei ver a Sirius B, mas a Sirius (A) além de ser a estrela mais brilhante do firmamento tem o raro e especial dom de me fazer lembrar que tenho um refractor doublet, embora não julgue ter sido essa causa de não a conseguir ver. A quinta estrela do trapézio também ficou por ver apesar da perfeita solidez da imagem apenas limitada por difracção - a turbulência era nitidamente inferior à resolução teórica do telescópio... Faltou um bocado mais de transparência ou talvez de paciência.

O Obsession de 25" foi naturalmente um centro de grandes atenções, com por vezes alguma hora de ponta. Entre outras, ficaram as visões quasi-fotográficas da caótica galáxia M82, a NGC 2392 ("Esquimó"), esta com um detalhe espantoso das múltiplas conchas de gás que considerei como visão definitiva desta nebulosa, pelo menos nos próximos tempos, e ainda da extraordinariamente colorida e complexa nebulosa de Orion M42/M43. Os gigantes gasosos mais distantes eram de um tamanho abismal com a mínima de Encke em Saturno fácil, embora tenha preferido a do obsession 15" que me parecia um nada mais colimado.
A altura da ocular por vezes não era aconselhável a quem tivesse vertigens, mas julgo que a curiosidade se sobrepunha largamente ao medo de cair de lá de cima do escadote de calibre "lidliano".
Por outro lado, os telescópios mais pequenos também beneficiaram (talvez até mais) deste céu, e todos eles mostraram aos respectivos donos e a quem quisesse neles observar, vistas de rara beleza que só um bom céu pode permitir.

Durante toda a noite foram caindo algumas leónidas, tendo algumas delas atravessado meio hemisfério, e por vezes vinham aos pares, mas de qualquer modo numa cadência algo superior à dos meteoros esporádicos. Pena que não tenha sido tão intensa como algumas previsões anunciavam, defraudando de certo modo muitos de nós que tínhamos levado câmaras para as capturar.

A noite terminou com a mais intensa e extensa luz zodiacal que alguma vez me lembra ter presenciado. Estendia-se de canto a canto dos olhos por mais de metade do hemisfério ao longo da ecliptica desde a constelação de Leão (esta desfigurada por Saturno) até aos pés de Gémeos. Era tão notória que julguei ser mesmo nebulosidade a formar-se, pondo um carimbo final de qualidade neste céu.

Noite no recinto do 1.23m
(clique na imagem - click on the image)

 

Noite no recinto do 1.23m
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Fomos todos embora por volta das 6:20, alguns congelados mas felizes. Estiveram Alberto, Alcino e o filho Rodrigo, Anselmo, Filipe Alves, José Ribeiro, Licínio, Luís Carreira, Luís Evangelista, Paulo Barros, Paulo Bénard Guedes e cerca 6 ou 7 astrónomos amadores locais cujo o nome escapou. Também nos acompanharam na viagem a Claudia e a irmã e a Patrícia.

Ver mais fotografias do local de observação.

 

AlhambraAdenda Turística - Recuerdos de la Alhambra

No dia de regresso a casa, uma boa parte do grupo acordou mais cedo para no caminho parar e visitar um dos mais famosos conjuntos de monumentos de Espanha.

Sempre fiquei curioso da origem da inspiração da peça de guitarra clássica "Recuerdos de la Alhambra" de Francisco Tárrega (1852-1909), uma das mais belas deste instrumento que se pode ouvir, ou melhor ainda, tocar. Depois da visita acho que faz bem juz à recordação que me da visita à cidadela de Palácios e jardins de Alhambra situada nos arredores de Granada com a imponente Sierra Nevada a servir de fundo. Um cenário de luxo.

Estivemos por lá pouco menos de 2 horas. Mas usando um passo acelerado foi possível visitar uma boa parte dos jardins com muitas fontes do Generalife (Jardins do Paraíso) e ainda os dois dos alcázares (palácios) mais interessantes, o Carlos V e a obra-prima mourisca Nazaries, ficando a Alcazaba (fortaleza) para a próxima vez.
Sem dúvida merece uma revisita mais pausada, embora tenha o inconveniente de talvez ser um local demasiado saturado de turistas, nem devo suspeitar como será na época alta, altura em que deve ser verdadeiramente de loucos lá ir.

Ver mais fotografias de Alhambra

De resto, a viagem decorreu sem qualquer percalço.

Como é habitual nestas expedições pode-se ler um relato pormenorizado no www.atalaia.org, ornamentado por muitas imagens do grupo, tendo também o Paulo Guedes feito uma página sobre esta viagem.


Pousados III
Magusto em Pousados

2006.11.11
Pousados - Alcanede

O "Sôr" Mota, mais uma vez pôs à disposição o seu quintal para mais uma noite sob as estrelas em Pousados, perto de Alcanena. Sendo esta noite de S.Martinho com magusto não faltaram as castanhas, febras, morcelas e água pé.

O cometa SWAN ainda se encontrava com algum fulgor, mas desta vez não foi possível registar praticamente nenhuma cauda.

Cometa C/2006 M4 (SWAN)
Cometa C/2006 M4 (SWAN)

Os 3 grandes enxames de Cocheiro - M36, M37 e M38 & companhia

M36, M37 e M38 & companhia

M36, M37 e M38 & companhia
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Depois nasceu a Lua, sendo o último alvo da noite Saturno que não via desde a sua volta por trás do Sol . Os anéis já estão notoriamente menos inclinados. Viam-se 3 satélites.