Março 2007

Pulo do Lobo VII
Maratona de Messier II

2007.03.17
Pulo do Lobo - Serpa

equipamento

A Maratona de Messier é um exercício que em alguma ocasião na vivência de astrónomo amador pode parecer ter algum sentido experimentar. A Maratona consiste em observar os 110 objectos da famosa lista de falsos cometas do Messier ao longo de uma só noite.

Não existem regras ou obrigações de como executar uma Maratona de Messier. Para quem está a iniciar pode parecer uma tarefa gigantesca o ter que apontar e identificar 110 objectos, e de facto assim é para aquele(a) que não esteja familiar com o céu, mas cada um faz como bem entender, embora achar que a utilização de algum método para apontar o telescópio usando circulos digitais (vulgo "goto") anule um dos objectivos que uma prova deste género por proporcionar: o de aprofundar o conhecimento do céu e da localização dos seus objectos. É um óptimo exercício de revisão, endurance, e uma festa se feita na companhia de amigos.

Uma maratona tem mais a ver com a extensão da lista de observação do que propriamente com observação. tipicamente menos de 1 minuto é dispensado em cada objecto e isto se for particularmente interessante ou um favorito. Para observações detalhadas existem sempre outras e mais pausadas noites. Todos os objectos são visíveis em qualquer abertura superior ou igual a 50mm com magnificações de 15x e acima quando sob um céu escuro. Alguns objectos necessitam de mais magnificação para se distinguirem, como é o caso de muitas das pequenas galáxias constantes na lista. A abertura necessária tem tendência a diminuir com a maior experiência. A próxima será provavelmente com uns binoculos 70x16.

A magnificação a utilizar será a menor possível, e usando uma ocular de grande campo até é possível "facturar" dois ou três Messiers e ainda alguns bónus de uma só vez. Neste caso em particular, a ocular utilizada uma panoptic 24mm e um Takahashi Sky90 que resulta em uma magnificação de 21x e um campo real com mais de 3 graus, ocasionalmente usava uma nagler 9mm (56x 1.5 graus) para os pequenos enxames globulares e ainda uma nagler zoom 3-6mm para as planetárias e planetas (83x-167x).

Pela a segunda vez fiz maratona nos céus escuros do Pulo do Lobo. As nuvens desapareceram completamente no início da noite. O SQM bateu o record absoluto de 21.60, mais escuro que Bragança ou Serra da Estrela, mas infelizmente houve pouca transparência , sendo esta até aos 5 graus acima do horizonte praticamente opaca, o que se veio a revelar problemático na recta final.

A Maratona de Messier tem demasiados pontos mortos para me manter entretido a apontar o telescópio ao longo de praticamente 12 horas, isto por saber a localização de mais de metade deles (que parece um grande feito mas nem por isso).
Para tal decidi adicionar mais alguns alvos à Maratona com sugestões do Karkoschka , que para além dos 110 de Messier inclui mais 140 objectos adicionais dos quais cerca de 100 podem ser observados em latitudes à volta dos 37-39 graus norte, incluindo os extremos Centaurus A, Omega Centauri e NGC 55.

Segue-se então o relato desta noite

A prova da Pescada

A maratona iniciou-se logo após o Sol se pôr.

Esta foi a altura para afinar os apontadores nos planetas brilhantes como Vénus ou Júpiter se estes estiverem acima do horizonte e ficar realmente pronto para iniciar a longa jornada até o Sol reaparecer no lado oposto.
Irá ser o balanço entre o nascer e ocaso dos objectos e a extensão da noite que vai determinar a dificuldade (ou a impossibilidade) de detectar os objectos constantes nas extremidades da lista. É extraordinariamente invulgar conseguir conjugar as condições atrás com uma noite limpa, um céu escuro sem Lua, e tudo isso acontecer num fim-de-semana. Este Sábado não foi seguramente o melhor dia.

No seu início o único alvo verdadeiramente complicado é a galáxia espiral M74 em Peixes. Esta bonita galáxia já é extremamente ténue em pequenas aberturas, ficando mesmo complicado quando observada durante o crespusculo, e com a luz zodiacal a piorar ainda mais o contraste. Deve-se tentar observar esta galáxia a partir do momento que se consegue triangulá-la com as estrelas, mas não insistir demasiado, e ir observando os restantes da primeira dúzia da lista e retornando as vezes que forem necessárias. Desta vez foi apenas à sexta vez e também a última da primeira dúzia a ser observado.

A sequência não é o mais importante mas convém estar de olho nestas três galáxias: M74, M77 e M33. Pode-se aviar logo o trio M31/M32/M110 em Andrómeda e o par M42/M43 e mas suas redondezas NGC 1981 e a nebulosa NGC 1973 ( "Homem a correr") todos em Orion , dando um salto aos enxames abertos M52 e NGC 7789 em Cefeu, M34 e M76 em Perseu e M103 em Cassiopeia, região onde se pode encontrar o duplo enxame NGC 869/ NGC 884, o enxame "ET de pernas para o ar" NGC 457.

contagem : 12+6

Depois desta primeira dúzia entra-se num grupo mais pausado e já bem longe da luz do crepusculo. Todos eles são relativamente populares e brilhantes.

Seguem-se as Pleiades (M45) e aproveitei para ver como anda a transparência na aparência da Mérope (não particularmente boa ), a primeira nebulosa do catálogo M1, subindo depois para os enxames M37, M36 e M38 do Cocheiro e também o M35 em Gémeos (e o pequeno companheiro NGC 2158) não esquecendo a planetária "Esquimó" NGC 2392. Retornando a Orion para o M78, dar um salto à nebulosa da Alnitak (NGC 2024) e ir até lá abaixo à Lebre para riscar o mal jeitoso do globular M79 da lista.

Já perto do meridiano central encontramos o M41 em Cão Maior e mais acima o M50 em Unicórnio e dai descemos um pouco para Puppis para o M93 e o fabuloso par de enxames M47/M46 (este último com a planetária NGC 2438) e subindo um pouco à direita um dos Messiers que nunca sei em que parte do céu se encontra : o enxame aberto M48. Finalmente acabando nos enxames M44 e M67 em Caranguejo.

Como tudo correu bem, já pelas 21 horas (48 minutos após o crepusculo astronómico) um quarto da lista estava cumprida e o meridiano central atravessado em mais de uma hora havendo então tempo para uma curta pausa podendo-se deixar o céu rodar até cerca de uma hora.

contagem: 28+10

Os preliminares

A natureza arranjou uma boa maneira de proporcionar um aquecimento para a batalhas inter-galácticas que se aproximam, e nada como os Messiers do Leão como uma boa entrada. Começa-se nos pares M95/M96 e M105/ NGC3384 e salta-se para a parte posterior do bicho para o par de M65/M66. Não esquecer de recolher os bónus NGC 3628 perto para anterior, dar um salto à boca do Leão onde está a galáxia que Messier incrivelmente falhou de incluir NGC 2903. Aqui ainda há tempo para a NGC 3606 e a NGC 3344 e também o bónus extra planeta Saturno.

Entretanto muda-se para outra região do céu, atravessando quase meio deste para ir para outro grande predador: a Ursa, com o par de galáxias M81/M82 (onde se pode ver as pequenas satélites NGC 3077 e NGC NGC 2976), a planetária M97/ galáxia M108, a extremamente bem iluminada M109, e já agora porque não a estrela dupla M40. Também existem aqui uns bónus para amealhar: a NGC 2683 em Lince e a NGC 2403 que são um belo prémio para os mais despachados. Não esquecer um desafio na NGC 2841. Mais para norte temos a controversa M102 e um saltinho á brilhante planetária "olho de gato" NGC 6543.

Passamos então a Câes de Caça iniciando a descida aos saltos de galáxia em galáxia até à sua estrela beta partindo da M106, passando pela NGC 4449 e finalmente a NGC 4490, daí é um saltinho até à M94, M63 e antes de subir dar uma salto à complicada e esticada NGC 4244 (esta é um super-bónus que apenas desconfiei). A M51 e companheira NGC 5195 são um alvo tradicionalmente popular assim como a M101.

Seguem-se dois globulares para desenjoar: o M3 ainda nos Cães e o M53 a já entrar na Cabeleira e a brilhante galáxia M64 às portas dos grandes enxamea. Antes de ter atacado a próxima etapa ainda se pode acumular os quase derradeiros bónus desta maratona : o par NGC 4656/ NGC 4631 e as quatro galáxias mais brilhantes da Cabeleira: NGC 4725 NGC 4559 e a NGC 4565 e a pequena eliptica 4494.

Depois deste bom aquecimento já são 23:00.

contagem: 48 + 31

A prova da Virgem Cabeluda

Este é outro dos momentos mais trabalhosos da noite.

A abertura dita a maior ou menor dificuldade de passar a prova da Virgem. Curiosamente a falta de abertura até se pode pode tornar numa vantagem, pois exclui as dúzias de galáxias que podem surgir num campo de uma abertura superior a 20 cm, tornando a sua identificação por vezes complicada. Com uma pequena abertura, não existe em regra grandes dúvidas de quais são os Messiers. A melhor a estratégia é começar onde está a virtude que é no meio. Neste caso entre as estrelas Denebola de Leão e a Vindemiatrix (quem faz a vindimas) da Virgem que marca onde se encontram o par mais brilhante M84/M86. Daqui será sempre um ponto de partida seguro para praticamente todas as galáxias desta região. Aqui só passa quem souber.

Abaixo temos a não menos grandiosa M87 e a pouco mais de um grau a M89 que se pode ver na companhia da M90 acima e a M58 abaixo, desta útima partimos para o par M59 e M60. Entretanto retornei ao par m86/M84 pois já andava perdido. Recomeçando fiz novamente o caminho M87-M89-M90 para depois subir quase dois graus até à ténue M91, a qual partilhou o mesmo campo com a M88.
Para a M98 e M99 parti de uma estrela de magnitude 5 que está quase a meio destas duas galáxias que não são propriamente fáceis, seguindo as estrelas brilhantes até à M100. Este conjunto é mais trabalhoso do que o parágrafo anterior faz crer. Houve algumas galáxias que vi por diversas vezes necessitando por vezes de saltar para lá para ter a certeza que estava na galáxia certa. Com 90mm todas elas são semelhantes em forma e brilho e igualmente pouco interessantes, piorando com o facto de serem elipticas.

É altura para as galáxias mais isoladas como a M85 em Coma que está perto de outra estrela de magnitude 5, a M49 que faz triângulo recto com a Beta e Delta da Virgem, colectando o único bónus que me atrevi adicionar nesta fase: a galáxia rodeado por duas estrelas NGC 4526. Terminei finalmente esta região na M61 que faz um triângulo com a delta e gamma de Virgem.

Depois já em fase de rescaldo, e de descida no horizonte a sempre popular M104, descendo pelo o Corvo até a secção da enorme Hidra onde se encontra o ténue globular M68 e finalmente a galáxia mais baixa do catálogo a M83.

contagem: 67 + 32

Depois desta prova é para alguns a altura para comer, tirar uma soneca ou então partir para outras actividades tais como a astrofotografia. Ficou a abaixo recordação desta noite. Pensei tirar uma foto à cadeia de Markarian, mas esta é demasiado curriqueira, então apontei para um campo mais acima onde se encontravam a M100 e a M99. Também andei à procura do Omega Centauri com os companheiros desta noite, sem grande sorte pois o baixo horizonte esteve mesmo intransponível.

M100 e a M99

A prova da bicharada

Depois da grande pausa, o recomeço sem grandes pressas, pois as constelações de Verão demoram ainda um pouco a dispôr numa altitude mais conveniente. Este segmento da lista tem alguns sucessos de bilheteira como os globulares M5, M13, M92 e as nebulosas planetárias M57 e M27 e outros de visita menos frequente como os enxames M56, M29, M39 em Cisne e M71 em Seta. Os objectos adicionais foram a " North America" NGC 7000 (muito pouco contrastada com o filtro UHC) assim como as "Véus" que também estavam praticamente invisíveis e finalmente a "pisca-pisca" NGC 6826 - que desta vez não piscou.

Rodando mais para Sul passamos aos globulares de Ofiúco, iniciando por cima em M12 e um pouco mais ao lado o M10. M14 faz um triângulo achatado com a Gamma e a Nu desta constelação. M107 é de tiro directo ao pé da Zeta e o M9 perto da Eta e nesta altura também de Júpiter.

A cabeça do Escorpião já se encontrava bem levantada com o M80 e mais abaixo perto da Antares o M4, concluindo a sequência com os últimos globulares de Ofiúco M19 e M62. Terminei esta secção com os enxames M6 e M7 na extremidade da cauda o Escorpião.

Eram 03:35 e fiz uma breve pausa para me preparar para cascata de objectos que se aproximavam.

Segue-se então uma grande cadeia de objectos a iniciar bem alto na constelação do Escudo com os enxames M11 e o M26, descendo até M16 (nebulosa da "Àguia"), M17 (nebulosa do Cisne), o enxame M18, passando a nuvem de estrelas M24, indo por um lado a M25 e pelo o outro oposto a M23. Descendo um pouco mais chega-se a uma região muito familiar da M20 (nebulosa "Trifida" )e M8 (Nebulosa da "Lagoa") e lá perto o M21, todos estes no mesmo campo da ocular. A caminho de um dos globulares preferidos o M22 passa-se pelo M28. Precisei de aguardar mais algum tempo para os pequenos e ténues globulares da base da cafeteira M69, M70 e M54 estivessem mais altos, tendo o do meio dado bastante luta.

A transparência naquela àrea do céu esteve péssima, mas o calendário foi integralmente cumprido até a esta altura : 04:43

contagem:103 + 36

A prova final (e morrer a chegar à praia)

Chegou finalmente o último septeto.

Nesta fase não pode haver dúvidas: devia ter treinado a triangulação destes objectos com o mínimo de estrelas possível, isto é algo que nunca faço e depois tramo-me. O fim da noite astronómica já estava muito perto, com as estrelas rapidamente começam a desaparecer. Aqui a abertura dá uma sincera vantagem, pois permite grande magnificações de modo a aumentar o contraste que se vai perdendo a olho(s) visto(s).

Apenas os globulares M15 em Pégaso e M2 em Aquário (in extremis às 05:05) foram detectados, embora tenha tentado os restantes M55, M75, M72 e M73. O M30 estava irremediavelmente abaixo do horizonte.

contagem final : 105 + 36

A servir de lembrete para mim próprio, fica o que teria sido o itinerário para os restantes não-detectados:

M55 é o objecto a ficar de atalaia, não só é um dos Messiers com a mais baixa altitude da maratona, mas também dos mais isolados da lista com muito poucas estrelas para o triangular. Embora seja de grande dimensões não é especialmente brilhante e devido à sua baixa altitude e consequente extinção atmosférica pode ser muito complicado de se observar com pequenas aberturas.

Já a caminho de Aquário e Capricórnio encontra-se o pequeno e ténue M75 que mesmo em condições normais não é pêra doce. Em Aquário estão o M72 e as 4 estrelas do M73, se não tiverem pressa (o que duvido) ver também a nebulosa Saturno mais acima e finalmente o último: o sempre ilusivo globular M30 em Capricórnio.

O fim

maratona


Atalaia XXVIII
Eclipse Lunar Total

2007.03.03
Atalaia (Montijo 38º44N 8º48W)

Tal como previsto a Lua passou pela a sombra projectada pelo o nosso planeta.
Este foi talvez o eclipse lunar menos escuro dos que presenciei. Na escala de brilho de eclipse de Danjon encaixa muito bem num valor entre 3 e 4, especialmente tendo em consideração o brilho do limbo mais iluminado.

Este eclipse foi passado com a companhia de todos os que estiveram na Atalaia nesta noite, que para além da companhia também me desenrascaram uma bateria para substituir a minha que entregou a alma à reciclagem. Também vários companheiros estiveram na Ponta do Sal (Estoril) a tirar fotografias e a mostrar ao público,

A Lua nasceu com a noite a dispôr-se para uma grande maratona eclíptica. Céu praticamente limpo na zona, com apenas algumas nuvens passageiras, mas rápidas, tendo-se assim mantido até praticamente ao fim do eclipse umbral. Muita humidade e uma temperatura amena.

Eclipse Lunar Total

A fase umbral do eclipse iniciou-se tornando-se imediatamente notório um difuso escurecer do limbo lunar Sul/Este.
Fiz o acompanhamento do avanço da sombra usando os binóculos 7x50, observando o lento reaparecimento de cada vez mais estrelas com o progressivo atenuar do luar. Uma das mais brilhantes (59 Leo de magnitude 5) iria ser ocultada já depois da totalidade (na imagem acima é aquele pontinho à esquerda mesmo quase a ser ocultado).

Uma boa maneira de observar a evolução da sombra na superfície lunar é utilizando um telescópio de grande abertura. Sem dúvida, as vistas que dei por diversas vezes no 15" do Alberto foram espectaculares e com Lua eclipsada verdadeiramente invulgares. Ver se não me esqueço de levar o meu 20 cm para o próximo.

Como em todos os eventos celestes raros, existe sempre a estranheza de ver a Lua a passar por fases "impossíveis" tanto neste hemisfério com em ambos. O ver as estrelas a gradualmente aparecerem e um hora depois voltarem a desaparecer, ou ainda ver nos binóculos uma lua cheia rodeada de estrelas e os olhos não ficarem completamente encadeados. Este eclipse pareceu-me o mais colorido até à data, com tons que iam do branco passando pelo cizento azulado, amarelo e terminando finalmente no laranja.

Lua em eclipse máximo 23:21 UT
Lua em eclipse máximo 23:21 UT
(clique na imagem - click on the image)

 

Lua 3 minutos depois da totalidade 00:02 UT
Lua 3 minutos depois da totalidade 00:02 UT

Tempos de Eclipse (Guide8):

- Equipamento utilizado para registar as imagens: Takahashi Sky90 e uma Nikon D70 em cima de uma Takahashi P2Z .

O próximo eclipse lunar total visível em Portugal será em 21 de Fevereiro de 2008, mas este será para noctívagos, iniciando a sua entrada na umbra às 01:42.

Outros relatos de eclipses lunares totais aqui no Pátio:



relato escrito e traduzido ao som de: