July 2007

2007.07.27
Local:Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

SORRY, CURRENTLY UNDER TRANSLATION

Vénus

O minguante de Vénus está cada vez mais pequeno, assim como a sua altitude causando neste "pôr-de-Vénus" um colorido psicadélico, que na altura da fotografia se encontrava com apenas 12 graus iluminados. Devido turbulência da atmosfera parece ter uma iluminação maior e ao seu efeito refractor causa a coloração.

Vénus




14/07/2007
Local:Barragem da Póvoa - Castelo de Vide

Astrovide

Cometa Linear c/2006 VZ13



Depois de uma grande proliferação há alguns anos atrás, as astrofestas têm vindo gradualmente a desaparecer, bastando apenas uma mão (mesmo com alguns dedos amputados) para contar todos os eventos que decorreram ou vão decorrer este ano, isto excluindo a Astronomia no Verão que são actividades geralmente realizadas, e apropriadamente, em locais onde as pessoas estão e não em locais apropriados. Embora não consiga arranjar grande explicação, o facto é que a astronomia amadora feita no seu meio ambiente tem cada vez menos oportunidades de se mostrar ao público em geral.

Mas uma coisa é para mim certa : o principal ingrediente para uma astrofesta é um céu escuro e muitos telescópios com os respectivos donos.

Seja-se astrónomo amador experiente ou um ocasional visitante, nada causará maior assombro do que a nossa Via Láctea em todo o seu deslumbramento, assim como tudo o que os telescópios ou binóculos irão acrescentar a essa experiência passada em directo. Estar sob um céu escuro é uma experiência cada vez mais inacessível e rara para a grande maioria da população - e o mais triste é que muitos nem o sabem e o que também estão a perder.

Também as actividades que podem ocorrer durante o dia, tais como palestras, lojas da especialidade, e simples tertúlias nos intervalos podem ser uma mais valia para um dia bem passado com a astronomia, sobretudo com toda a troca de conhecimentos, novidades e confraternização que respectivamente daí advéem.

O Astrovide costuma ter sempre cada um destes ingredientes, (excepto infelizmente um bar/snack com luzes vermelhas), tendo este ano notado a ausência das lojas, que para mim é como um miúdo numa loja de brinquedos, pois um crescido é um sempre um miúdo, só o preço dos brinquedos é que muda...

As palestras deste ano foram variadas, desde o Filipe a mostrar com consegue fazer as imagens e toda aquele virtuosismo e creatividade técnica que já nos habituou , passando pela experiência de décadas do José Ribeiro que neste momento é um colaborador em projectos internacionais, à descrição do processo de descoberta científica do Carlos Santos usando alguns dos maiores telescópios do Mundo, até à descontraida da história da Astronáutica contada pelo jovem autótocne José Leite. No intervalo os participantes (e qualquer transeunte) tiveram a oportunidade de observar o Sol através de um espectrómetro de alta resolução do José Ribeiro, que mostrava o arco-iris com as diversas linhas de absorção correspondentes aos diversos elementos que constituem o Sol e também a atmosfera que se interpôe - demonstração que que julgo ter sido inédita por cá. Tive pena que sessões com um planetário portátil que estava previstas não tenham acontecido.

M8, M20 & M21
(clique na imagem - click on the image)
Reparar no par de estrelas e pequena nebulosa de reflexão
(IC 4678 ou GN 18.03.5 ) às 11 horas de M8

Já na barragem da Póvoa, e depois do jantar ao ar livre todos seguiram para um local elevado na sua margem.

A noite esteve perfeita. Não havia a Lua, nuvens, nem bicharada inoportuna estando uma temperatura amena até bem tarde (estive de t-shirt até perto das duas horas da manhã). O SQM marcou um máximo de 21.45 que é um valor excelente para uma noite de Verão. Em quase todo o céu a magnitude foi superior a 6, apenas interrompida por algumas luzes de automovéis devido ao local se encontrar perto de uma estrada. A única circunstância a lamentar foi a falta de civismo (e educação) de alguns (presumo jovens) campistas que por lá estiveram acampados, que até à minha saída perto das 4 da manhã, insistiam em por música(?) com grande volume e até apontar focos de luz.

Marcaram presença dois telescópios de grande porte , por sinal ambos Obsession , o 18" do Anselmo e o 15" do Alberto, que conjuntamente com o "divã" binocular, uma engenhoca do Carlos Seabra, grangearam grande parte da atenção dos presentes. Como tinha o meu próprio equipamento para assistir não me desloquei muito do meu canto, ficando sem grande ideia de quantos telescópios e pessoas que por lá estiveram, mas o local pareceu-me bastante composto e animado.

Trouxe comigo o costumeiro equipamento para fazer os meus instantâneos astrofotográficos (a Takahashi P2Z e o Sky90) e ainda os dois binóculos Fujinon 7x50 e o 16x70.
Durante a cronometragem dos 5 minutos de cada uma das exposições, passeava no céu de binóculos com a ajuda do Karkoschka, tendo percorrido diversas cartas com bastante exito.

Nesta noite também foi a a estreia dos Fujinon 16x70 sob um céu escuro. Estes binóculos apesar de já serem um modelo clássico, são aqueles pelos quais todos os outros binóculos se comparam, e poucos favorávelmente dentro desta abertura segundo a opinião generalizada, . Independentemente da sua fama, superaram todas as minhas expectativas, e como assim dizer abriu-me os dois olhos para o Universo. O "hype cyberespacial" é perfeitamente justo.

Comecei a observação pelo o cometa mais brilhante do momento, o Linear C/2006 VZ13 que está a caminho do Boeiro, aparentando ete brilhar mais que os 9.8 magnitudes previstas, apresentando uma grande coma mas no entanto sem cauda visível tanto nos binóculos como no 90mm. Durante toda a noite obtive vistas espantosas da M31 e satélites em Andrómeda, do duplo de Perseu, da M33 em Triângulo, M101 e M51 em Câes de Caça, dos inúmeros enxames de Cassiopeia, e de toda a amálgama de nebulosas, enxames, globulares e nebulosas escuras que povoam os braços da Galáxia desde o Cisne até à base do pote de Sagitário. E ainda houve tempo para passar pelos M30 de Capricornio, os M72 e M73 e até a Helix de Aquário, terminando a noite já nas Pleiades e no bem vermelho planeta Marte. Foi um verdadeiro festim binocular.

Já para o fim da noite resolvi fazer uma fotografia de um alvo particularmente complicado de observar em céus menos que escuros. A galáxia de Barnard (NGC 6822) possui um brilho de superfície extremamente baixo (14.4), pelo que a sua observação é um bom indício de uma noite escura e transparente. Durante toda a hora que demorou a ser fotografado tentei vê-la com os binóculos, mas só ficou a ligeira impressão que talvez houvesse lá qualquer coisa, algo insuficiente para ser uma vista positiva. A galáxia em si não é particularmente um alvo interessante, salvo o desafio em a conseguir observar (ou antes detectar), mas é o se pode arranjar mais parecido com as Nuvens de Magalhães aqui para os lados do nosso hemisfério.

NGC 6822 & NGC 6818 (full frame)
(clique na imagem - click on the image)



2007.07.04
Local:Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)

Duplas Binoculares

Aqui no pàtio, as noites posteriores a grandes periodos de céu nublados têm a característica de serem relativamente transparentes. Na melhor região do céu a magnitude limite chegou a atingir a magnitude 5, que é uma condição um pouco invulgar por estes lados.
Peguei então numa cadeira e nos Fujinon 16x70 e puz-me a observar duplas que fossem adequadas para este instrumento.

16,17 Draconis - Sistema binário verdadeiro (visto partilharem o mesmo movimento próprio ) separado em 90" de duas estrelas bem quentes (B9V e B9) a cerca de 400 anos luz. Este par é interessante em todos os binóculos. A sua grande separação e por ser constituído por estrelas brilhantes com brilhos e tonalidades semelhantes (5.5 e 5.4 respectivamente) não são uma visão rara mas no mínimo curiosa, fazendo sempre parar o varrimento binocular do céu.

25 (Nu) Draconis - A separação deste par é praticamente a definição de 1 minuto de arco (62") sendo um dos vértices da cabeça do Dragão, também conhecido por Kuma ((Starnames, Their Lore and Meaning, de Allen não faz referência a este nome, mas menciona que é uma das quatro camelos femea para os nómadas ), sendo este talvez o mais brilhante perfeito exemplo de um par gémeo de estrelas brancas com magnitudes de 4.89 e 4.86 respectivamente, sendo ambas do espectro Am. O "m" é por possuir linhas de absorção metálica bem largas, característica que indica que possuem uma rotação lenta, sendo esta encontrada em binárias próximas deste espectro cuja desaceleração é provavelmente causada por efeitos de maré num efeito muito semelhante ao que se passa no sistema Terra-Lua (Kaler, Stars and their spectra). Está a 100 anos luz de nós e à semelhança do par anterior é também um verdadeiro sistema binário.

Nu Draconis

31 Psi Draconis (Dziban) - Dupla bem mais apertada (30") que as anteriores, cuja diferença de magnitude dificulta ligeiramente a sua resolução . Estrelas 4.555 F5IV e 5.532 G0V respectivamente ambas situadas a 72 anos luz.

Epsilon Lyrae - Esta é a famoso duplamente duplo sistema de estrelas, situada numa das mais emblemáticas constelações de Verão - a Lira. Tentei resolver a olho nu, mas sem chegar a grande certeza se o alongamento era real ou produto do astigmatismo. Nos binóculos é um belo par de estrelas bem folgadas, mas óbviamente não resolvido nos seus mais pequenos componentes. Os 70mm de abertura do binóculo são mais que suficientes para resolver os 2-2.5" que separam cada uma das epsilon, mas com 16x é praticamente impossível (com o meu refractor 60mm pelo menos a 71x e a custo). Apesar de ser tradicional usar esta dupla para testar a capacidade de resolução de pequenas ópticas, na realidade qualquer abertura superior ou igual a 60mm com o mínimo de qualidade faz saltar os quatro componentes, isto é, se a turbulência não atrapalhar e desde que se utilize o mínimo de magnificação, que nas noites mais estáveis pode começar em 50x.

Se se orientar a imagem da ocular fazendo um recta sem inclinação, a epsilon-1 é a mais fácil de resolver com as estrelas uma ao lado uma da outra (PA=347), sendo uma delas notoriamente menos brilhante. A epsilon-2 as estrelas estão praticamente uma por cima da outra (PA=80).

As 4 estrelas estão situadas a 160-162 anos luz (49.8 parsecs), sendo um sistema binário composto por sua vez por dois sistemas binários. A separação destes dois sistemas é cerca de 3.5' correspondendo à nossa distância a 0.165 anos luz (10458 UA)*. Esta é uma distância que se pode considerar um pouco menos que inconsolávelmente inatingível (a sonda Pioneer 10 em 24 anos apenas se afastou quase 95 UA da Terra, encontrando-se neste momento no "corno" Oeste da constelação de Touro a brilhar a umas míseras 52 magnitudes). Com esta separação o periodo orbital entre as duas epsilon nunca será a inferior a meio milhão de anos...

* 49.8x210 (distância ao objecto em parsecs) x (segundos de arco) = 10458 UA/206265 = 0.05 pc = 0.165 anos luz

A Epsilon-1 é composta por duas estrelas anãs F de 4.67 e 5.81 que têm um periodo de 1655.6 anos estando separadas neste momento em 2.53" (126 UA) que é cerca de 3 vezes maior que a órbita média de Plutão. Por outro lado a Epsilon-2 é composta por duas estrelas novamente anãs espectro A de 4.59 e 4.80 e têm um periodo de 724 anos estando separadas neste momento em 2.36" (117.5 UA).

Este aparato será decerto mais incrível do que o da 16 Cygni. Para termos um planeta humanamente habitável teria que ter uma órbita equivalente à de Júpiter numa das estrelas (estas estrela tem o dobro da massa do Sol) ficando assim com um segundo Sol a brilhar como 500 luas cheias. As estrelas da outra epsilon brilhariam 1 grau separadas com a intensidade de um quarto de Lua... a resultante mitologia local seria deveras interessante.

Ainda passei de relancei pela as Zeta e Beta da Lira, sem conseguir discernir a parceira da Beta.

13 Cygni - Este é o folgado e bem brilhante par (300") que se pode observar no campo da 16 Cygni e da planetária NGC 6826 (pisca-pisca). A mais brilhante é uma anã F4 a 60 anos luz a brilhar a 4.49 e a menos brilhante é uma gigante 10 vezes mais distância com mais duas magnitudes.

16 Cygni - Revisitei este sistema de duas estrelas amarelas de magnitude semelhante (~6) ao nosso Sol que foi mencionado num relato do passado mês, está separado por 40", resolvido sem grande dificuldade.

Beta Cygni (Albireo) - Se existem verdadeiras estrelas mediáticas, julgo crer que poucas o são mais que este par. Merecidamente o primeiro par de estrelas telescópico que iniciou muitos na beleza colorida das estrelas. Com a vista desarmada poucos se terão apercebido que as estrelas possuem cores que vão do azul mais intenso até ao vermelho vivo. Os binóculos e telescópios, que são essencialmente concentradores de luz, fazem estimular os sensores de cor nossos olhos que quando a trabalhar em modo de visão nocturna só "vêem" tonalidades cinzentas. Quanto mais brilhante, maior a probabilidade de se poder ver cor. A Albireo é tão brilhante e colorida que praticamente qualquer abertura pode servir, mas a 16x de magnificação já mostra um belo e contrastado par de estrelas ouro e azul.

Estando no lugar da cabeça de uma das constelações mais reconheciveis, a do Cisne, é extremamente fácil de encontrar, mesmo estando no meio de uma cidade, visto a magnitude integrada resultante da contribuição das magnitudes 3.05 e 5.12 ser 2.9. O catalogo Hipparcos dá as distâncias de 386 ± 26 ano luz para a gigante vermelha K3II e 376 ± 28 anos-luz para a anã branco-azulada B8V, cuja a diferença de 10 anos luz está confortávelmente dentro do intervalo de incerteza, podendo ser um sistema binário ou simplesmente duas estrelas na mesma linha de vista. Com este brilho e quase a 400 anos luz de nós, são óbviamente estrelas muito brilhantes, como grande parte das estrelas mais proeminentes do nosso céu, brilhando respectivamente 700x e 100x mais que o nosso Sol, que teria aquela distância uma ténue magnitude de 10.13, quase no limites dos binóculos de 70mm. Um par a nunca perder.

Beta Lyrae

Seleccionei as quatro duplas paa testar os limites de resolução, sendo sucessivamente mais "íntimas".

K Herculis (Marfik) - Par óptico 5.3 mag G8II e 6.5 mag K1III separadas por 28"

63 Serpentis (Alya. Alga) - Apenas separadas por 22.3", a diferença de magnitudes torna-as tão complicadas de resolvar com a bem mais apertada dupla abaixo mencionadas: as componentes são uma estrela A5V de 4.5 e a companheira do mesmo espectro com 5.4 magnitudes.

100 Herculis - Outro par aparentemente óptico de estrelas gémeas A3V com 5.81 e 5.84 magnitudes, separadas por apenas 14".

95 Herculis - Espantosamente resolvida com apenas 16x! Com uma separação de apenas 6.3",as magnitudes semelhantes de 5.0 (G8III) e 5.1 (A5III) permite que se consiga ver as duas estrelas distintamente, embora não propriamente separadas. Não chegou no entanto para distinguir as suas cores. Apesar de partilharem o mesmo movimento próprio não parece haver movimento relativo entre elas.

C 4756 e NGC 6633 - Quando andava a prescurar o céu pela a dupla anterior deparei com este par de enxames fronteiriços da Serpente e de Ofiúco. É um belo alvo para estes binóculos. O IC é enorme, muito homogéneo mas rico, o NGC mais pequeno com cerca de metade da dimensão do anterior, mais concentrado, mas ambos com uma estrela brilhante com vizinha. Podem-se ver simultâneamente nos 4 graus de campo disponibilizados pelos binóculos, embora não propriamente com muita sobra. Estes enxames estão quase à mesma distância a 388 pc e 312 pc respectivamente. Acho intrigante de somente em 1922 o IC 4756 ter sido reconhecido com enxame aberto, sendo este também chamado "Graff cluster" em honra do seu descobridor (Star Clusters, Archinal/Hynes). Um par binocular a revisitar em melhores céus.




página escrita e traduzida ao som de: