Agosto 2007

2007.08.14
Local:Vale da Lama - Alpiarça

Vale da Lama IX

Mais uma noite passada sob céu ribatejano, onde ainda consegue sem dificuldade mostrar os braços da Via Láctea. A noite astronómica começou com algumas nuvens mas limpou definitavamente ainda antes da meia-noite. A magnitude limite rondava os 6 no zénite, com o SQM a marcar cerca de 21.10, tendo havido alguns periodos de maior humidade e turbulência.

Desta vez, tivemos a companhia de um jornalista (Ricardo Nabais) e um fotógrafo (José Santos) do semanário "Sol" que estiveram connosco até perto das duas da madrugada (!). A reportagem saiu na revista Tabu da edição de 18 de Agosto e descreve (a meu ver bem) o que é uma noite típica passada sob as estrelas com estes e outros companheiros.
Os meus parabéns à equipa de reportagem, que prestou um bom serviço à astronomia amadora na sua vertente mais "outdoor". E as meeelgas ? para cima de duzentas... para cada um.

Esta foi também a noite anterior à do pico previsto para as Perséidas, mas como é habitual algumas delas não se fizeram rogadas e escolheram ter um brilhante final um pouco antes. Apesar de não ter andado a contá-las, a cadência foi significativa durante toda a noite, tendo algumas delas feito um espectacular espalhafato.

Entretanto no telescópio, apenas observei um (1) objecto: NGC 7331 na constelação do Pégaso.

A sua descrição visual é de uma pequena e alongada nebulosidade obrigatóriamente solitária através da abertura utilizada.
Tendo consultado o MSA (carta 1142), verifiquei que para além do famoso Quinteto de Stephan ainda se podiam encontrar duas galáxias um pouco pindéricas no generoso campo da Nikon D70 (quase 4 graus na diagonal). Passei cerca de 3 horas a fotografa-la.

Depois de "revelar", surgiram quase cinquenta galáxias...

NGC 7331
(clique na imagem - click on the image)
ou aqui para imagem com legendas

Por vezes não existe outra alternativa senão atarrachar engenhocas atrás do telescópio para se conseguir obter alguma coisa interessante em observação. Galáxias em visual não é o prato forte para um telescópio de 90mm, por muito que insista...

A constelação do Pégaso já se encontra afastada dos braços poeirentos da Via Láctea, proporcionando uma boa janela para o restante Universo. È uma das àreas que passa no nosso zénite que permite que se observe os fotões já velhinhos de galáxias longinquas.

O Quinteto de "Stephan" também conhecido por Hickson (HCG) 92 do qual são membro as galáxias NGC 7317, 7318A, 7318B, 7319 e 7320B/C é um dos mais estudados grupos compactos de galáxias, com centenas de "papers" a referi-la. Estas galáxias estão neste momento em interacção, havendo vestígios de colisões recentes e anteriores.
O Quinteto é um interessante desafio visual para quem possua um telescópio com abertura superior ou igual a 15", tendo já observado este grupo neste mesmo local no Obsession 15" do Alberto (Vale da Lama III).

A NGC 7331 é a rainha absoluta visualmente (mas só de aparência, porque não parece ter muitas galáxias suas súbditas) estando a "apenas" 22 milhões de anos luz. As galáxias que parecem ser sua satélites, na realidade pertencem a um pequeno grupo de galáxias situado entre 250-350 milhões anos luz mais atrás, e há quem sugira que esteja relacionado com o Quinteto. A NGC 7320 por outro lado está à mesma distância de NGC 7331 (20 milhões de anos luz), com grande probabilidade de não pertencer fisicamente ao grupo Quinteto que está situado uns longinquos 250 milhões de anos luz mais atrás.

O grupo compacto de meia dúzia de galáxias UZC-CG 280 (Updated Zwicky Catalog-Compact Group), onde estão incluídas as galáxias NGC 7345 e 7342 e a PGC 069385 (esta última curiosamente é mais brilhante por estar mais próxima, sendo uma elíptica com "jets" como a M87) que está situado perto das duas estrelas amarelas/vermelhas de magnitude 6, está a uns impressionantes 350-400 milhões de anos luz da nossa Galáxia.

A imagem resulta de 12 exposições de ~5 minutos (uma delas com 6 minutos por distracção) num espaço de três horas por causa da conversa e dos petiscos. Com este alinhamento arrítmico, não há "dark frame" que safe o ruído térmico, de resto como está bem demonstrado na imagem abaixo, embora não esteja muito mau para uma camara fotográfica de trazer por casa.

De resto andei entretido a vaguear pelo o céu com os binóculos 16x70 e a olho nú a ver as Perseídas a cair.

Ler o relato no www.atalaia.org , a do Hugo e o artigo na revista Tabu do semanário Sol




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