Janeiro 2008

2008.01.12
Local:Atalaia (Montijo 38º44N 8º48W)

Atalaia XXX

Mais uma grande noite de convívio na Atalaia, apesar da morte anunciada do já não muito abundante céu escuro. Logo tinham de plantar um aeroporto internacional a 500 metros de nós.
As ameaçadoras imagens de satélite não fizeram vacilar os muitos que por lá estiveram, e para quem, deu como bem empregue o tempo, que deve ter sido talvez para mim o mais curto que por lá passei, tudo graças às nuvens que começaram a surgir a pouco e pouco a partir da meia-noite. Houve muita humidade, com a temperatura a rondar os 5 graus, com as oculares a embaciar só de olhar por elas, mas para compensar, a turbulência esteve geralmente baixa. O SQM marcou 20.40.

Desta, levei o meu telescópio veterano de muitos relentos, o dobson de 20cm, que no momento se encontra impróprio para consumo de imagens planetárias e estrelas duplas, por culpa de um parafuso de colimação partido, mas ainda vai servindo para visitar objectos naturalmente difusos como o cometa Tuttle abaixo esboçado.

Este cometa, que nos visita cerca de 13 em 13 anos, está quase a chegar ao seu periélio (27 Janeiro), movendo-se no céu na altura da observação aparentemente -0.58 graus/dia em AR e -2.47 graus em declinação, encontrando-se a descer a pique a constelação da Baleia (Cetus), que na altura já se encontrava bastante atenuada pelo o globo de poluição luminosa do Montijo. Apesar de tudo, ainda se apresentou bastante perceptível, como uma nebulosidade arredondada, muito pouco condensado e sem cauda.

O extraordinário cometa 17P Holmes continua ainda a ser um objecto visível com a vista desarmada, encontrado-se no momento a pouco menos de dois graus da Algol (Beta Persei) na constelação de Perseu.

Cometa P/Tuttle 8P (20080112 2200 UT)

Concentrei-me de seguida num enxame favorito da corrente temporada, o NGC 2264.
Este enxame é interessante por diversos motivos. Num telescópio que inverte a imagem, como um newtoniano, assemelha-se bastante à forma triangular de uma árvore de Natal, mas com a "estrela" na base e não no topo, dominando o enxame, ou mais precisamente uma associação (OB) que ocupa cerca de meio grau do campo, que no campo da panoptic 24mm ficou bem enquadrado.
Esta jovem associação dista cerca 2400 anos-luz de nós. As associações, ao contrário dos enxames, são grupos de estrelas que não estão gravitacionalmente associadas, e quanto mais afastadas, mais antigas serão. Esta é muito compacta e tem associada uma grande região repleta de nebulosas e poeiras, responsáveis pelas espectacularmente coloridas imagens de longa exposição, tais como a Nebulosa do "Cone" e a "Pele de Raposa" - infelizmente visualmente nem deram para desconfiar.
A estrela atrás mencionada (S Monocerotis) é no entanto muito especial, sendo uma estrela tipo O7.5III-Vf (e antes que mudem de "canal", O7.5 - temperatura entre 25000° - 45000° Kelvin, III-V luminosidade gigante-anã e f que emite nas linhas de hélio e nitrogénio), quase se situa quase no topo da escala de temperaturas de estrelas. Mesmo à distância de 1020 ± 230 anos-luz, brilha aos nossos olhos à volta da magnitude 5. Estrelas com esta espampanante luminosidade são muito efémeras, e por tal relativamente raras de se encontrarem, muito menos visualmente como foi o caso.

A pouco menos de dois graus, a nebulosa variável de Hubble (NGC 2261) é por sua vez iluminada pela a R Monocerotis, que não se consegue observar em luz visível (nem com o Hubble), encontrando-se muito próxima de uma estrela de magnitude 10 (TYC 746 1024) que serviu de modesto farol de sinalização. A nebulosa foi apenas visível usando a visão indirecta, não dando também oportunidade para visualizar convenientemente a sua característica forma de cometa, não me tendo restado alternativa senão a de borrar disformemente o papel com a ponta do dedo. Na falta de melhor, aqui está uma imagem que lhe fiz há 3 anos aqui no pátio.

A variabilidade desta nebulosa já é conhecida desde 1861, mas ficou célebre por ser uma das primeiras imagens feitas por Edwin Hubble com o Telescópio Hale de 200" acabado de inaugurar no Monte Palomar em 1947. Ele notou ao comparar duas imagens separadas em alguns anos que a nebulosa apresentava brilho diferente. Desde dessa altura têm-se observado variações até 4 magnitudes no brilho, que não depende apenas da variação da estrela, mas também da movimentação de poeiras. A estrela responsável que está enterrada em 200 UA de poeira, parece ter todos os sinais de que está no seu estado inicial de formação: muita poeira, muito gás e muita acção, com acreção e perda de massa simultâneamente. A R Monocerotis será uma estrela do tipo A ou B com o dobro da massa do nosso Sol, com a sua parceiro T-Tauri de 1.5 massas solares, irão formar, para não variar, mais uma bela dupla de estrelas.

NGC 2261 & NGC 2264

Dignos de registo fica um curioso agrupamento dos satélites mais brilhantes de Saturno excluindo Titan, planeta que por sua vez apresentava os seus aneís bem menos inclinados do que foi habitual nos últimos anos. A galáxia do "charuto" M82 (se calhar é altura de escolher uma alcunha politicamente mais saudável), apresentou bastante detalhe dos numerosos veios de poeira que a rasgam. Tudo isto no Obsession 15" do Alberto, onde ainda se fez uma tentativa para se observar a ilusiva Sirius B, ficando no entanto a memória telescópica da estrela mais brilhante do céu também bem marcada na retina.

Uma bela e concorrida noite para abrir a nova temporada na Atalaia e como sempre existe sempre mais para ler e ver as imagens em www.atalaia.org .

Bibliografia:



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