Pátio 273
Crónicas Astrofotográficas
2009.01.10
Pátio (Leiria 39.75N 8.82W alt:60m)
Parece coincidência, mas ter céu limpo fim-de-semana, são sempre de Lua Cheia... mas para o efeito, pouco interessava. Continuando com a aprendizagem do novo equipamento, juntei uma câmara atik 16IC e a roda filtros USB do mesmo fabricante. Esta câmara vai ser quase exclusivamente utilizada no telescópio guia para autoguiagem. A roda de filtros será para esta câmara quando utilizada para imagem e para a ainda desconhecida futura câmara.
Desta vez usei o Maxim DL (em versão demonstração obviamente) onde fiz as sequências das imagens LRGB, e mais os flats para cada um dos filtros e para a luminância, com respectivos conjuntos de darks e por fim os bias. Fazer esta tarefa sem programar o sequenciador é aquilo que se pode chamar uma valente seca.
Não usei guiagem, apenas o
Takahashi Sky90 com conjunto câmara+roda de filtros USB da Atik, configuração do mais simples possível, mas que já faz aumentar a quantidade de cabos a emanar do telescópio e montagem, e ainda faltam as fitas aquecedoras Kendrick. Pelo que prevejo o "cable management" é um assunto que vai dar que pensar.
Pretendia fazer tudo automaticamente não fosse o pormenor de ter parar a sequência para focar cada um dos filtros. Os filtros são provavelmente parafocais, mas o
Takahashi Sky90 não é, e claro, na cor azul como manda a regra nos doublet de focal curta. Também não ajudou muito alguma descolimação e o frio já estava a medir na escala negativa, causando algum stress nas ópticas.
Fiquei a considerar seriamente as virtudes de ter um gadget como o RoboFocus que provavelmente possuirá mais uma lombriga sedenta de amperes a juntar ao resto da parafernália (e já agora um também para o telescópio guia). É com alguma pena chegar à conclusão demoro mais tempo a enrolar cabos que a desmontar todo o aparato da minha pequena
Takahashi P2Z . Embora nunca vá deixar de refilar com os cabos e baterias e todo o resto da tralha, vou-me convencendo que tudo isto terá provavelmente alguns frutos no futuro para objectivos difíceis de atingir com a minha montagem a pilhas.
O alvo foi o enxame aberto M35 em Gémeos, perto do qual se encontrava também a Lua Cheia, por sinal a maior do ano 2009. Fiz 10 exposições de 30 segundos para cada letra do LRGB, 20 flats para cada cor, 8 bias, e 8 darks para cada tempo de exposição (só 8 porque o MaximDL ou a câmara começou a asneirar). Todas bin 1x1.
![]() M35 LRGB5 5 5 5 |
O resultado foi a imagem acima. É certo que mais tempo de exposição até não seria nada despropositado, mas o exercício serviu para aprender (e relembrar) algumas coisas, tais como não ter grande pachorra para fazer imagens LRGB, e ainda menos de cocktails de filtros de banda estreita. Bem..., pelo menos aqui do Pátio.
Mas a lição mais importante é o flat. Li (várias vezes) no Handbook of CCD Astronomy, um excelente livro de Steve B. Howell (Cambridge University Press), que o flat dá arrepios na espinha mesmo dos mais experientes. Estes julgo que dariam para partir a espinha. Tenho de fazer urgentemente uma caixa de luz para fazer os flats, já me basta o gradiente da poluição luminosa. Reparar nas estrelas mais brilhantes com 6 raios, pequenos mas bem representativos do stress óptico nos 3 pontos de colimação. A imagem apenas calibrada e nivelada, sem porrada.
O que correu bem:
- software e plugins e o netbook, 5.5 horas a trabalhar a temperaturas de 1 dígito sem problemas de maior, o que é sempre de espantar na plataforma Windows. Dos programas que testei, o Maxim DL continua a ser o mais eficaz e completo, com a versão beta do Artemis fornecido com a Atik com alguns pormenores interessantes, como o controlo da roda de filtros e um sequenciador de exposições. A redução/calibração das imagens no Maxim DL é o cúmulo da simplicidade, especialmente com aquele "wizard" que poupa muito trabalho entediante. Desde que se façam as imagens de calibração requeridas o programa faz todo o resto - vai no entanto custar a engolir o preço dele, mas acho que merece.
- Gotos da EM-200 e seguimento impecável (embora a imagem pareça vagamente arrastado talvez alinhamento deficiente). A precisão do GOTO da Temma é bastante satisfatória com um alinhamento polar de um 1 minuto usando apenas o seu buscador. Nas primeiras movimentações o alvo ficava exactamente na "mouche", mas ao fim de meia dúzia o provável erro de alinhamento polar ia acumulando e colocando consequentemente os alvos cada vez mais fora do centro, mas pode-se aliviar o erro sincronizando em algumas estrelas brilhantes. O Goto torna tudo fácil demais.
O que correu mal:
- flats um pouco desenrascados demais. Apontei o telescópio para uma chaminé branca, que diga-se tão bem iluminada pela poluição luminosa e pela Lua que bastaram exposições de 8 segundos para os tirar. Provavelmente tenho que arranjar um t-shirt com melhor linhagem, ou menos surrenta para por à frente da objectiva, porque apesar de tirar muito pó da imagem adicionou outras que não existiam.
- Atik16IC com condensação. Apenas afectou num canto do chip (não na janela óptica) mas pareciam duas colónias de fungos em alarmante expansão . Não há flat que tire esta coisa que por natureza varia de exposição para exposição. Para os curiosos , mexam nos niveis da imagem e reparem no canto superior esquerdo.
- AVI de Saturno que me recuso terminantemente a publicar nesta página, apesar dos meus critérios algo pedestres. Mas que bonita está aquela lâmina a atravessar o disco.
Nas imagens abaixo é preciso ressalvar que o a bias e o dark estão esticadas para salientar o ruído, que na realidade é extremamente baixo
BIAS |
DARK |
FLAT |
LIGHT |
Glossário para quem veio parar a esta página sem querer:
- Bias - leitura do CCD sem qualquer exposição. Valores de cada um dos pixels, que não espantosamente nunca são iguais.
- Bin - Termo curioso para dizer como são agrupados os pixels na leitura do CCD. 1x1 quer dizer que é leitura directa da matriz, 2x2 quer dizer que agrupa 4 pixels adjacentes e lê como se fosse 1 pixel, com efeito prático de o sinal ser 4 vezes maior e o tamanho da imagem 4 vezes menor, e demorando até 4 vezes menos tempo a descarregar. Este bin 2x2 ou até 3x3 é usado para focar e para exposições de filtros de cor para que é preguiçoso.
- Dark - exposição em escuro. Para cada tempo de exposição é feito um conjunto destas imagens, que irá originar o "masterdark", sendo este subtraído (literalmente) de cada uma das imagens. Os flats precisam também do seu conjunto, pois tipicamente tem um tempo de exposição diferente. Normalmente convém ser um conjunto de 10 ou mais para cada "master".
- Flat - Num mundo perfeito, os ccds tinham a mesma sensiblidade nos seus pixels, o pó e por vezes coisas bem piores não caíam nos espelhos, lentes e filtros, e as ópticas iluminavam correctamente todo o campo do sensor, mas como na realidade não é perfeito, é necessário tirar "flats". Os "flats" que são uma espécie tira-nódoas das imagens astronómicas, onde estão escarrapachados quase tudo o que de mau pode acontecer aos fotões assim que entram no tubo. É preciso um conjunto de flats para cada filtro, pois cada um tem porcaria disposta de maneira diferente, assim como a resposta do CCD em cada comprimento de onda (cor), com os quais se fazem os "masterflats" que são divididos (novamente literalmente) a cada uma das imagens.
- Luminância - Exposição não filtrada ou apenas filtrada no espectro não visível (por ex, no infra-vermelho).
- LRGB - Imagem a 3 cores (tricromia). vermelho, verde e azul respectivamente, e mais uma imagem sem filtro (ou com filtro IR que serve essencialmente para dar mais "sinal" à imagem.
- M35 - Messier 35, da famosa lista de falsos cometas do caçador de cometas Messier . Enxame aberto de estrelas nos pés da constelação de Gémeos.
- Porrada - Métodos de processamento gráfico para tornar uma imagem relativamente fiel à verdade, numa mais ao gosto do artista ou do gosto em vigência, em que inclui redução de ruído,redução de gradientes, redução de estrelas, endireitar estrelas, fazer desaparecer estrelas e voltar a fazê-las aparecer. Normalmente de pois de uma sessão de porrada , as imagens ficam mais agradáveis, mas notam-se as nódoas negras.
- Takahashi Sky90 - Telescópio apenas comparável a um Stradivarius, mal saiem da fábrica são logo vintage, rigorosamente feitos à mão, com os mais precisos metais e ópticas de flourite extraída numa câmara de vulcão numa ilha do Pacifico cuja localização é guardada em sigilo, a erupção só acontece de 500 em 500 anos, que apesar de tudo é menos tempo que a lista de espera de um refractor Astrophysics. Ok é uma peta, carreguem aqui para saber toda a verdade.
página escrita e traduzida com a companhia de:

BIAS
DARK
FLAT
LIGHT