Março 2009

Campanha de Observação da estrela WR140 no periastro

2009.02.23-2009.03.10
Tenerife

Esta campanha teve como objectivo monitorizar as colisões dos ventos solares de um sistema binário de estrelas maciças e muito quentes. A campanha estendeu-se ao longo de quase quatro meses, com oito equipas formadas por astrónomos amadores e profissionais de Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Espanha, Reino Unido, Bélgica e Holanda. Eu, o Alberto Fernando, o Filipe Alves e o José Ribeiro formamos a penúltima equipa.

O objectivo principal era a captura de espectros da estrela WR140, no período anterior, durante, e posterior ao periastro, efeméride definida como o ponto mais próximo entre duas estrelas num sistema binário.
Para aproveitar o tempo de observação disponível, foi definida uma lista adicional de estrelas quentes e maciças e dos tipos Oe e Be.

O Observatorio del Teide em Tenerife conjuntamente com o Observatorio del Roque de los Muchachos em La Palma formam o European Northern Observatory (ENO).

O MONS é um telescópio pertencente à universidade belga do mesmo nome, sendo este gerido pelo Instituto de Astrofísica de Canarias (IAC), podendo ser utilizado por estudantes de astrofísica ou para campanhas como esta. No mundo da astrofísica profissional é muito raro poder "ter tempo" de quase quatro meses de observação contínua num observatório desta dimensão.

Observatório visto do Pico do Teide
Observatório visto do Pico do Teide
1280
Mons
Mons
1280
Casa Solar
Casa Solar
1280
Mons
Mons
1280

O telescópio MONS é um Cassegrain Clássico de 50cm f/15 montado numa equatorial alemã.
Pode-se descrever o telescópio como mecânicamente básico, sem capacidade de apontamento robotizado, mas equipado com enormes círculos graduados para um apontamento preciso do alvo, refinando de seguida com um buscador. Também não tem capacidade para auto-guiagem, tendo também esta de ser feita à mão através de uma consola que permite accionar os motores de AR e declinação. Felizmente o seguimento era bastante preciso na maior parte das posições do telescópio, sendo na maioria na maioria do tempo de exposição do objecto necessárias poucas ou nenhumas correcções. Foi um interessante retorno ao básico, mas que no final acabou por produzir (por vezes suados) resultados.
A operação com o telescópio era em tudo semelhante aos mais pequenos, mas com o inconveniente de se ter que usar quase sempre um escadote para manobrar o telescópio num por vezes perigoso carrossel à volta da montagem com o risco de tocar no espectroscópio. Em algumas situações foi mesmo necessário um pouco de acrobacia, com o buscador a ficar bem mais alto do que o escadote permitia chegar, como acontecia nos alvos de baixa altitude. Mas com um pouco de prática bastavam 2 pessoas para uma operação confortavelmente e sem grande dificuldades. Numa boa sessão, chegavam a ser observadas até seis estrelas.
O planeamento dos alvos a observar era efectuado antes do Sol se pôr, por ordem de ascensão recta de modo a optimizar os movimentos do tubo, agrupando-os também por altitude máxima, evitando assim a mudança da escotilha da abertura da cúpula (esta escotilha tinha que ser levantada para os alvos de baixa altitude).

Tipicamente uma sessão era aberta com a captura de "flats" para os primeiros alvos, coisa para demorar pouco mais de uma hora, depois passávamos para os alvos fazendo três exposições de 20 minutos intercaladas por exposições de emissão de néon para posterior calibração. As exposições eram monitorizadas por uma câmara de guiagem que cuja imagem servia de guia visual para executarmos os movimentos de correcção do telescópio de modo a fazer entrar o máximo de luz na fenda do espectroscópio. Quando estava mau tempo de noite faziam-se "bias" e "darks" para redução de imagens e exposições de calibração. No caso da WR140, que no nosso caso era o último alvo da noite, era necessário mudar a fenda obrigando a um novo conjunto de "flats" no final da sessão. Uma noite bem passada acabava sempre com um magnífico crepúsculo acima das nuvens.

Este céu, ao contrário do da ilha de La Palma não se encontra protegido por lei, com um baixo horizonte já bastante poluído pela a iluminação pública da costa, mas obviamente que não podíamos deixar escapar a oportunidade de explorar este ainda excelente céu por puro prazer.
Trouxemos uns binóculos Fujinon 16x70, um refractor Takahashi Sky90 em cima da Takahashi P2Z , diversas objectivas, uma câmara refrigerada SBIG ST10 e a Canon 40D. O José Ribeiro trouxe ainda uma pequena estação de detecção e espectroscopia de meteoros. Sendo uma equipa de quatro elementos, permitia-nos revezar as responsabilidades, arranjando todos sempre tempo para a observação um pouco mais lúdica.

A montagem com a cúpula do 1.75 ao fundo.
A montagem com a cúpula do 1.55m ao fundo.
Mons at work
Mons at work

O observatório está situado na latitude de 26.5º N, pelo menos 10 graus abaixo da parte mais a Sul de Portugal Continental, permitindo observar regiões do céu e constelações parcialmente visíveis ou até invisíveis, tais como a Vela, Centauro, Carina, Crux, Antlia e Pyxis.
Mas sem dúvida a vista mais impressionante, e para mim inédita, foi a região da Eta Carinae que graças a nos encontrarmos a 2400 metros de altitude se elevava quase 2 graus acima do horizonte que quando observada a nível do mar, e isto apesar da altitude na altura do trânsito do meridiano não chegar aos 6 graus de altitude, mas foi no entanto suficiente para observa-la nos binóculos com grande nitidez e contraste em pelo menos em duas das noites.
A Alpha Centauri é o sistema triplo mais próximo do nosso Sol (4.4 anos-luz), onde está incluída a Proxima Centauri (2.2 anos-luz) que na realidade está distanciada da Alpha mais de 2 graus e muito pouco brilhante com magnitude 11 e que não consegui identificar nos binóculos. O cometa Lulin esteve em grande na sua rápida passagem pela constelação do Leão. Eu e o Filipe Alves encarregamo-nos de obter diversas imagens astronómicas usando uma objectiva de 50mm e o Takahashi Sky90 .

Cometa C/2007 N3 Lulin
Cometa C/2007 N3 Lulin
1920
Omega Centauri - NGC 5139
Omega Centauri - NGC 5139
1920
Centaurus A - NGC 5128
Centaurus A - NGC 5128
1280
Eta Carinae - NGC 3372
Eta Carinae - NGC 3372
1280

Praticamente todos os dias descemos para visitar a ilha. A rede de estradas é muito boa, embora com troços muito sinuosos mas com igualmente gratificantes magníficas paisagens de montanha, com grandes escarpas e vales, tudo com intensa florestação (pinheiros) entre os 1000 e 2000 metros, bastando meia hora de automóvel para passarmos de alta montanha e molharmos os pés na costa atlântica. Tentamos evitar restaurantes turísticos e os locais de turismo em grande escala que se encontram em grande parte da costa e as praias, que de resto são uma das razões principais do turismo de pacote em Tenerife, com todos os inconvenientes associados.
Fomos por diversas vezes à base do Teide e aos campos de lava circundantes, onde fizemos algumas caminhadas, tendo apenas conseguido subir ao pico no penúltimo dia de estadia, numa alucinante subida no teleférico, e uma vez chegados cume foi interessante saber que ainda é agradável estar a 3550 metros de altitude.

Teide nevado
Teide nevado
1280
La Palma
La Palma
1280
Montanha
Montanha
1280
Sombra do Teide
Sombra do Teide
1280

Visitámos também o IAC em La Laguna, tendo como nosso anfitrião Johan Knapen, um astrofísico especialista em galáxias e um dos responsáveis pela a aceitação da proposta de observação. Levou-nos a visitar os laboratórios e oficinas onde são desenhados e fabricados instrumentos para observatórios tanto terrenos (ex: GranTeCan) como para observatórios espaciais.

Foram quase 2 semanas a 2400 metros de altitude, a viver a vida de astrónomo num observatório profissional, praticamente regulada pelo o Sol e pelas condições atmosféricas. Tivemos noites de mais de dez horas de observação ininterrupta e outras de espera que as nuvens passassem. Tivemos ainda três dias de tempestade de neve que colocou o observatório em estado de emergência, em que o observatório nos recolheu para a residência/cantina "dos ricos", onde tínhamos quarto individuais, ao contrário do quarto com quatro beliches da Casa Solar onde ficámos instalados, que apesar de rapidamente nos termos habituado (mesmo com o barulho do motor do aquecimento central), não deixava de ter o conforto e a comodidade de uma pousada da juventude remediada. O pessoal do observatório foi cinco estrelas, simpáticos e prestáveis.

Um astrónomo a trabalhar no campo, seja este amador ou profissional, tem por vezes uma vida dura, não tanto pelo frio e vento mas porque em grande parte ser uma actividade solitária. Mas não estávamos isolados do mundo, os telemóveis e a Internet em todas as instalações ajudaram a suportar as inevitáveis saudades. Apesar de tudo, não se pode deixar de ficar maravilhado com a magnífica paisagem, o Sol a pôr-se atrás do cone do Teide e a sua sombra projectada nas nuvens, a sensação de viver acima destas últimas (bem, quase sempre), a leveza e pureza do ar de montanha, o acordar no meio de cúpulas de telescópios, ou então completamente rodeado de neve. Foi uma experiência única esta de viver e trabalhar "profissionalmente" num observatório a tempo inteiro, e realmente apreciar em pessoa o que é a vida de um astrónomo profissional.

Mons e a equipa

Esta a campanha foi uma boa demonstração de como amadores podem colaborar ao mais alto nível em trabalhos profissionais. A operação correcta de instrumentos científicos e aquisição de dados de qualidade científica está perfeitamente ao alcance de quem se disponibilize a aprender, e saliente-se, que muitos dos problemas que por vezes surgem são mesmo triviais, do género em que é só necessário um pouco de fita adesiva ou uma rolha de cortiça, ou que simplesmente sejam correntes na área profissional de um astrónomo amador. A muito portuguesa característica do "desenrasque" é, e neste caso também foi, uma mais-valia quando se opera instrumentos que tipicamente são peças únicas e em alguns aspectos até remediadas.

Algumas ligações :

Todas as imagens são da equipa


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